Thelema: Uma Egrégora Hardcore

No portal de recepção, no local de entrada, nós penduramos um aviso: este lugar não é para qualquer um. Não pense que estamos brincando, muito menos tentando convencer você de que há a possibilidade de um mundo melhor caso siga a nossa doutrina. A única coisa que iremos lhe mostrar é o mundo como ele é, doa em quem doer. Este aviso costuma ser suficiente para afastar todos os maltrapilhos curiosos que se aproximam de nossa morada. Ninguém que não possua um mínimo de coragem e bravura em seu coração é capaz de dar os três toques na porta e pedir permissão para entrar. Porém, mesmo aqueles que entram em nossa sala de estar ainda são avisados da seguinte maneira: se teme a morte, vá embora.

Assim vão saindo de fininho todos os que chegaram carregados daquela paciência improdutiva que a torpe interpretação do orientalismo pode trazer (eles mesmos, os orientais, cometeram esta gafe de confundir paciência ontológica com paciência mundana). Todos os “zens”, “bichos-grilo”, “esquisotéricos” new age em geral enfiam o rabo entre as pernas e simplesmente desaparecem quando entendem que Thelema não lhes passará a mão na cabeça em nenhum momento, que Thelema não é uma filosofia de vida ou uma forma melhor de ver as coisas, mas sim um tremendo soco no estômago que bota para fora de uma só vez tudo que estava entulhado impedindo a evolução do ser. Thelema não espera uma domesticação budista, é 8 ou 80. Ou se está preparado ou não.

O cerne de nossa religião chama-se Vontade. Nós mandamos à merda todos os filósofos mesquinhos que cogitam a possibilidade de não possuirmos livre arbítrio e sermos apenas fruto das causas e consequências da natureza. E, ainda, devoramos em nosso almoço e em nosso jantar todos os padres, pastores e profetas hipócritas que tentam fazer os fracos acreditarem que alguém externo a eles decidiu sobre suas vidas. A sinceridade ontológica da egrégora Thelêmica é, sem nenhuma sombra de dúvida, cruel e sádica. Muitos são os pequenos que batem em nossa porta dizendo “também queremos ser como vocês! Queremos ser deuses!”. É muito fácil e medíocre perceber que nossas felicidades e sentimentos belos são motivados pela nossa divina vontade. Este é o grande chamariz e a grande armadilha Thelêmica . Entretanto, após esse devaneio infantil, nós nos reunimos com esses cachorrinhos, damo-lhes boas bofetadas na face e, com um sorrisinho irônico no canto da boca dizemos: não só a alegria, mas toda a desgraça, maldição, infortúnio e infelicidade que houve, há e haverá em suas vidas é também responsabilidade de vocês. Esta notícia, quando percebida no seu mais profundo significado, corrói o ser por dentro e o leva a uma crise de proporções astronômicas, cuja única saída é ou a fuga neurótica e hipócrita (como faz a imensa maioria) ou um salto rumo ao desconhecido e novo em busca de um resultado completamente inesperado que pode levar a vida para rumos outros diferentes das antigas ruminâncias domésticas na rotina de ração, chicote e carinho.

Sim, são verdadeiros os boatos de que acreditamos no Cristo. Contudo, nosso Cristo não está morto na Cruz. Após ter morrido, ressuscitado e percebido que seus esforços pelos cães foram infrutíferos, ele resolveu sair pela Terra espalhando sabedoria apenas àqueles que tem ouvidos para ouvir. Tente ensinar matemática a uma vaca e nos compreenderá. Quer conhecer nosso Cristo? Assista a um filme feito por um dos nossos. Dogville, de Lars von Trier. Nós cultuamos o verdadeiro espírito cristão que é muito diferente desta filosofia imbecil criada por Paulo de Tarso. Queremos o bem da humanidade, evolução, alegria, mas fique certo de que isto nada tem a ver com compaixão, sentimentalismo, passividade e submissão.

Thelema tem pressa, afinal vivemos em tempos de urgência, de transformações instantâneas e dinâmicas. Queremos absorver o que há de produtivo em tudo o que há na vida e principalmente na morte e neste viés somos gnósticos. Não vamos lhe ensinar nenhum valor que lhe permita relaxar ou ser uma pessoa melhor. Faze o que tu queres será o todo da Lei. Encontra produtividade onde quer que seja, ou melhor, encaixa seu ser na mais divina e bela produtividade possível e receberá nossa mais profunda benção.

E, por fim, não pense que nos restringimos a coisas como “ordens”, “graus”, “patentes” ou convenções do tipo. Nós estamos em todo lugar, inclusive ao lado de sua mente neste momento esperando a sua reação para decidirmos se vamos ou não infiltrar sua mente com toda a nossa beleza e horripilância.


Autor: Frater Dionísio