Thelema: Esquerda ou Direita?

Um assunto que já vem sendo tratado de forma bastante acalorada é a questão política dentro de Thelema. Há os que dizem que Thelema é de esquerda e que pessoas de direita não deveriam ser Thelemitas. E há os que colocam Thelema à direita do espectro político e argumentam que esquerdistas não poderiam ser Thelemitas. Curiosamente, para cada argumento que se expõe para uma das argumentações, o mesmo argumento muitas vezes é usado para a outra. E como estamos de Thelemitas, a decisão segue (bastante) acalorada.

Não. Não vou expor aqui esses argumentos. Por quê? Porque todos estão errados. E todos estão certos. Como é que pode isso? Pode porque Thelema não é de esquerda nem de direita. Thelema é, pura e simplesmente, Thelema. Mas Thelemitas são de todos os espectros políticos possíveis. E isto mostra uma das características mais interessantes do pensamento Thelêmico: por não possuir uma doutrina rígida ou dogmas, a forma de se enxergar Thelema acaba sendo uma fusão entre o texto (canônico ou não) e o pensamento individual de cada Thelemita. E, cá entre nós, é assim mesmo que tem de ser. Contudo, uma coisa deve ser lembrada. Apesar de tudo, Thelema não é uma casa da mãe Joana, onde qualquer coisa é liberada. Existe, sim, um código de ética em Thelema. Ao invés de explanar esse código aqui, sugiro que façam uma leitura bem atenta de Liber Oz e de Dever.

Nestes textos, colocam-se valores que são fundamentais para o exercício de Thelema. Por um lado, em Liber Oz se fala dos direitos inerentes ao Ser Humano sob a perspectiva Thelêmica: o direito à livre ação e pensamento, o direito ao gerenciamento de seu próprio corpo, ao livre mover-se. Já em Dever temos a contra-parte da responsabilidade que temos para com nós mesmos, para com o outro, para com toda criatura e para com o mundo.

Mais do que se preocupar com teorias políticas e sociais, Thelema se coloca como um caminho próprio que busca permitir ao Ser Humano alcançar o conhecimento de si mesmo e o exercício dos resultados deste conhecimento, a consecução de sua Vontade. Mais do que uma licença para realizar qualquer desejo que se apresente, como muitos parecem buscar em Thelema, é um caminho de disciplina, consciência e libertação da pura essência que faz com que cada indivíduo seja aquela estrela única brilhando no Corpo de Nuit. Ao dizer-se Thelemita, a pessoa está declarando não apenas que busca esses princípios mas, talvez até acima disso, que busca que cada um tenha a liberdade em sua vida para agir neste sentido. E isto é uma expressão do amor conhecido como Agapé, aquele amor sublime que não distingue o Eu do Outro, ou do Todo. Um Thelemita entende que não há essa divisão real e que a Liberdade só pode ser verdadeira quando é colocada não apenas para si mas para todos.

Thelema é um caminho de Amor e de Liberdade. São princípios universais desta forma de se relacionar consigo mesmo e com o mundo, seja na forma de um pensamento religioso, filosófico ou um “estilo de vida”. Não importa. Esses princípios universais são a chave. Não importa se você vê a si mesmo ou a Thelema como um posicionamento de esquerda ou de direita. Enquanto você vive, pratica e defende você está no caminho Thelêmico. Seu posicionamento político não pertence a qualquer grupo espiritual ao qual você pertença (ou, pelo menos, não deveria) e nem a Thelema em si. Ele é seu e só seu. Mas não há escolhas sem responsabilidade nem atos sem consequências. Assim, é claro que podem (e até devem) haver Thelemitas de esquerda e Thelemitas de direita. Ou Thelemitas que não se coloquem em nenhum destes aspectos.

Mas, de uma forma ou de outra, não imbua a Thelema as suas escolhas ou os seus atos. Assuma-os corajosamente. Mas não se esqueça de que Thelema não é qualquer coisa que você queira para justifica-los. Muito pelo contrário. Se você vê atos, ideias e propostas que vão contra estes princípios, se você aceita aqueles que buscam destruir a possibilidade do Amor e a prática da Liberdade, se as ideias que você aceita ferem aquilo que está no Liber Oz ou impedem o que está em Dever… Talvez você deva repensar se Thelema é realmente o seu caminho.


Autor: Frater Inanis