Thelema Brasilis

Faze o que tu queres será o todo da Lei.

Talvez seja tarefa ingrata tentar falar em liberdade na maioria dos países localizados abaixo do Equador. Talvez também pareça notável existir filosofia que ouse não estar ajustada a uma cada vez mais comum época de preconceitos e restrições. O que haveria em nosso país se, de repente, um movimento, uma força, uma corrente, surgisse com tal ideal verdadeiramente livre, igual e fraterno? A resposta é de poucos conhecida.

Porém grande parte destes poucos constitui a casta dos que fazem a sociedade ser apenas instrumento de sua mesquinhez. E foi esta mesma elite que, precisamente sabendo das hipóteses da consecução da Vontade humana, por algumas décadas calou homens e mulheres que queriam simplesmente viver.

Outros, embora possuidores de um conhecimento capaz de libertar o espírito, lamentavelmente afetados por condicionamentos e terríveis rancores, mantiveram-se em tolas demandas a buscar títulos, patentes, exclusividade e o que quer que fosse supostamente necessário para camuflar o tosco complexo de inferioridade, normal em cidadãos do terceiro mundo; no caso específico, o Brasil. Estes tolos, apesar de reconhecidamente fortes, perderam-se na diversidade dos conflitos que procuraram, acabando soterrados por suas próprias rigidez e intolerância; e, ironicamente, serviram simploriamente aos caprichos daquela elite dominadora. Ao fim, passaram e bem pouco fizeram.

Certamente pouco restou. Mas o que restou, por penoso aprendizado, permaneceu puro em essência. E o que será que sucede o Tolo, o Zero? A Unidade, a Essência, ou a Vontade.

E vimos aqui justamente a isto, reapresentar a Lei da Vontade.

Esta Vontade é o testemunho de uma ininterrupta necessidade de crescimento, sendo a síntese da virtuosidade divina original e causal expressa em amor. Amor, um ideal que muito perdeu de seu primordial significado, sendo transformado em onírico agente de propaganda social. Entendamos como amor, o resultado da ação da Vontade, sendo o meio plasmador e efetivador da manifestação essencial.

Tal necessidade de crescimento não é caracterizada por ânsia e sim por determinação natural da expressão vida. E assim como a expressão vida segue independente de adversas forças que nela incidem, a Vontade no homem não pode, tendo a verdade como princípio e meta, ser restringida por quaisquer que sejam as razões. Sua restrição implica morte.

Em Liberdade encontramos o lar da vida onde o grande propósito atua, sendo consequência direta da identificação da Vontade. Temos então definidos os três pontos básicos da Lei. Vontade, Amor e a resultante Liberdade.

Estando estes conceitos fora do alcance da maioria, fica fácil a proliferação de equivocadas regras de condutas bem como falsos regimentos de moral e ética. A liberdade conquistada passa longe dos mal conhecidos procedimentos anárquicos, promovedores de desordem social. Desordem social, exatamente como a que vivemos, é o mais vil crime contra a manifestação da Vontade.

É imprescindível o autoconhecimento, para que a identidade original desvele sua Vontade, cabendo ao identificador a realização da mesma. Não haverá conflitos, pois A Vontade sendo única não é contraditória.

A analogia das órbitas é uma imagem da Lei. São diversos os mundos, diversas as estrelas e sistemas, todos realizando suas vontades expressas como as particulares órbitas de cada unidade. Não há conflitos, nem interferência entre os traçados, como se todas as vontades fossem respeitadas, apenas há Ordem. Relacionar homem e estrela é útil, pois entender-nos como parte de um sistema que reserva para cada indivíduo uma própria órbita ou caminho, é entender o mecanismo da Lei.

Na perfeita compreensão dos parâmetros básicos da filosofia, reside o segredo da iniciação dos Mestres do Templo da Arte Alquímica. Na não observância do caminho do entendimento, está a final perdição dos Escravos do Abismo.

Todos já ouviram, enfaticamente e exaustivamente, a respeito da comercializável Era de Aquário, de modo que, ao abordarmos este assunto, urge a brevidade.

No embate dos opostos não é raro tomarmos o escuro pelo claro, o positivo pelo negativo, o belo pelo feio. O Oculto assim sempre o será, por sua própria lógica de (não) existência. Um exemplo claro disto: a Era de Peixes teve seu tempo, seu messias, sua doutrina, seu Livro. Mas o que é o culto cristão senão uma crença em valores estritamente relacionados com Fé, Religiosidade e Caridade; o amor, a maternidade, a Grande Mãe ou A Virgem? Precisamente o signo oposto ou oculto a Peixes; Virgem.

Da mesma forma, a tão aclamada nova Era de Aquário oculta o sentido essencial desvelado por outro signo, a era de Leão. Esta oculta face do presente período, está diretamente envolvida com o Culto ao Sol, onde o homem assume sua condição divina, deixando de ser um ente passivo iluminado por Mercúrio, ou o Messias da era de Peixes-Virgem, passando ele mesmo a ativo iluminador; não mais um representante da verdade, mas a verdade mesma determinada por sua Vontade. E interessante observar que o termo “iluminado” caracteriza carência de luz própria, diferindo posicionalmente de “iluminador” ou aquele que emite luz.

O Culto ao Sol, vale esclarecer, não possui identidade com a ingênua prostração diante do astro-rei, nem implica em sacrifícios rituais em nome de qualquer deus. Além do nítido enfoque fálico, o Sol simboliza essência e liberdade de expressão em alto grau de pureza. Tal pureza não compactua com os mal delineados apelos conceituais e comportamentais de espiritualidade. Pureza apenas por ser original, nada mais. Cultuar o Sol é tarefa de toda uma vida, é desenvolver ao máximo a si próprio em todos os sentidos, sejam internos ou externos; é fazer com que a personalidade torne-se forte o suficiente para suportar o peso e o brilho do archote que todo homem e toda mulher porta. Isto é o que determina o Signo de Leão. E o Leão é a fera, a Besta.

Novamente lembramos a imagem das estrelas e suas órbitas. Reconhecer-nos como sendo a expressão única da verdade, e não encontrar eco para tal sentimento em outros, é incorrer em grave erro, sendo esta atitude fruto de despreparo moral, ético e humano; nela achamos a fonte de toda discórdia e insatisfação. As estrelas sugerem o exemplo, são vários Sóis, todos no mesmo universo sendo centro de um sistema, não havendo disputa entre os astros. Portanto, é necessária a compreensão de tal atitude junto com os princípios fundamentais da Lei. Este sintoma é próprio daqueles que permanecem presos à sombra de um passado e ainda carregam a cruz do Filho Único.

Finalizando, pensar em um Estado onde possamos estar organizados, vivendo livres, aprendendo e ensinando, sendo a expressão da Vontade manifestada as claras e sem compromisso, com certeza é agora uma simples aspiração e utopia. Mas é exatamente nas utopias e nos sonhos, onde encontramos os responsáveis pelo movimento do mundo. Agora o que podemos fazer é respirar fundo e agir, percebendo as nítidas tendências mundiais, sentindo a mudança já iniciada. Faze o que tu queres, está é a plenitude da Lei. E num termo grego, significando Vontade, encontramos a Palavra desta Lei: Thelema.

Amor é a lei, amor sob vontade.


Autora: Soror Babalon