Solene, Demasiado Sonele

Uma das coisas que, sinceramente, eu acho mais cacete no meio ocultista é essa necessidade quase doentia por solenidade. Calma, calma… Não estou me referindo a ritualísticas e coisa e tal. Estou me referindo ao dia a dia, à vida fora dos templos e círculos mágicos. Quer dizer, você sabe que existe uma vida fora dos templos e círculos mágicos, não sabe?

De uma forma ou de outra. Junte dois ocultistas e você vai ter um verdadeiro dicionário de conjugações verbais na segunda pessoa. Isso, fora a verdadeira coleção de relações familiares, tanto em português quanto em latim. Preferencialmente em latim. Quando vamos para o meio das redes sociais, então, chega às raias do caricato. Dá para ver o pessoal se esforçando loucamente para usar as palavras mais complicadas, as citações dos livros mais profundos. Chega a dar para ouvir o pessoal escrevendo com aquela voz profunda de oráculos sagrados, devidamente vestidos com seus mantos encapuzados. Cada um tentando se mostrar o mais solene, sério e, portanto, profundamente espiritualizado que consiga.

Gente… Não rola. Ou melhor, não enrola. Mas, infelizmente, temos mesmo essa cultura de que a espiritualidade está na seriedade absoluta, na solenidade e na sisudez. Acabamos esquecendo mesmo do riso, da brincadeira, do pensamento livre. Já reparou que a imagem do sábio é sempre a de um velho homem de longas barbas brancas? Normalmente como uma cara tão amarrada que dá até medo?

Isso reflete um conceito, um conceito bem antigo (que tem gente que até chamaria de patriarcal), de que o conhecimento só podia ser obtido intelectualmente. Por isso a imagem do velho: uma vida inteira de estudos profundos e comprometidos. E só quem estudava eram homens. Portanto, um velho de longas barbas. A parte da cara amarrada acho que é porque, como ele não curtia a vida, ficou de mau humor.

Obviamente, essa era a… podemos chamar de realidade?… lá pelos idos de 1.600 e Dom João Charuto. Uma época em que, de fato, as regras sociais só permitiam (majoritariamente falando) homens tivessem acesso a estudos. Homens ricos, claro, que não precisavam fazer mais nada da vida. Mas, convenhamos, essa é ainda a nossa realidade? Século XXI! Google, telefones espertinhos e tudo o mais? Feminismo, movimentos LGBT e uma sociedade inteira buscando se reformar. Enquanto isso, nós, a patotinha ocultista, ainda querendo viver naquele mundo do Charuto! Ou, pelo menos, dar uma baita impressão de que ainda vivemos. Caiamos na real. Hoje qualquer um pode ter acesso a conhecimentos que só aqueles ditos senhores sisudos tinham. O conhecimento, para usar uma dessas palavras bacanas, se universalizou. Não precisa mais ser algo restrito a uns e outros, que precisavam, as vezes, esperar anos e anos para conseguir um livro específico ou encontrar aquele ritual bacana que estava procurando.

Hoje em dia estamos levando um tapa na cara é da garotada. É, as crianças. Essa patotinha pega um celular, um computador e sai usando sem se preocupar com manual. Tá, a gente também não se preocupa com manuais, mas você entendeu. Vivemos uma nova era, com novos valores e conceitos. Gostamos de nos colocar em um Novo Eon mas queremos ter valores e atitudes do anterior. Não é um pouco contraditório? Precisamos mesmo mudar esses conceitos. Temos de entender que há sabedoria, sim, na imagem do velho sábio falando coisas esquisitas com pompa e circunstância, mas que também há muita, muita sabedoria na criança, no espontâneo, no simples. Afinal, não é o Louco a primeira e a última carta dos Arcanos Maiores?

Então, gente, por favor… Vamos deixar um pouco de lado essa pose de Sábios Heremitas na Internet e vamos relaxar um pouco pelo menos. Vamos falar de forma simples, para que sejamos entendidos, não para que pareçamos sábios e misteriosos. Vamos aprender a rir, principalmente de nós mesmos. Enfim, vamos nos permitir ser essa Criança Coroada e Vitoriosa ao invés de um bando de chatos.


Autor: Frater Konshu