Sobre o Direito de Matar

O Homem tem o direito de matar aqueles que queiram contrariar seus direitos.
Aleister Crowley. Liber Oz

Intrometendo–me nas questões de Liber OZ, tenho que dizer que eu acredito que a única “coisa” capaz de interferir nos direitos descritos no Liber seja o próprio ser, isto é, o próprio Homem.

Obviamente tenho que colocar o que expressei de forma linear para ficar mais compreensível. Quando digo que o Homem é responsável por quebras de direitos descritos em Liber Oz, considero o Homem da seguinte maneira: Corpo Físico, O Ego (eu inferior), Eu Superior (Anima/Animus), e Deus (o todo/nada ou inconsciente coletivo). Desta forma o corpo físico seria a ferramenta para a manifestação do ego, este seria a ferramenta para a manifestação da vontade do Eu superior, que seria a ferramenta para a manifestação de “Deus”.

Levando em conta os fatos acima acabamos com o livre–arbítrio, a não ser que tenhamos a “consciência divina”.

Crowley em seu sistema tenta orientar os interessados a conhecer algo que ele denomina como Verdadeira Vontade. As pessoas em geral não sabem o que são ou o que querem, e isto seria a causa de todos os conflitos internos e da dor. (“que a dor da divisão seja como nada e a alegria da dissolução tudo” — Liber AL) Seria esta ignorância, esta falta de conhecimento sobre “si mesmo”, que poderia contrariar (e isto de maneira ilusória, na minha opinião) os direitos descritos em Liber Oz, portanto teríamos o “direito de matar estes que contrariam nossos direitos”. Bom, se o que nos atrapalha é a limitada consciência que temos sobre nós mesmos, temos o direito de matá-la.

Lembrando que praticamente tudo escrito por Tio Al é baseado em simbolismo “esotérico”, podemos chegar a conclusão que a morte é simbólica, certo? O Simbolismo da morte é a transformação, logo seria uma transformação de consciência. Como provocar esta “morte” seria a parte mais polêmica de tudo, eu diria que não há um “meio” específico para isto a não ser a “Vontade”. Pois esta morte seria um auto–sacrifício, um ato de Vontade, os motivos os mais variados possíveis, na maioria dos casos causados por conflitos internos que tem sua origem na própria Vontade do indivíduo.

Tecnicamente, esta morte hoje em dia tem base científica (no que podemos considerar a Psicologia uma ciência) em C. G. Jung e seus seguintes, e pode ser explicada de maneira “científica”.

O que aconteceria “Além do Ego”?

Não pretendo aqui abordar como dissolver o Ego ou “matá-lo”, mas sugerir o que ocorreria com sua morte (transformação). O ato de anular o que o ser entende por si mesmo (o Ego), faz com que a “taça” (o ser) se esvazie, abrindo caminho para que a taça receba mais vinho (informações), ou amplie sua consciência. Isto faz com que o “ser” tenha contato/consciência com seu Self (anima/animus/inconsciente pessoal) e este por sua vez tem contato/consciência com Deus (nada/todo ou, segundo Jung, o Inconsciente Coletivo). Desta forma, em teoria, o ser descobriria o que é, e por consequência descobriria sua própria Vontade.

Simples, não?

Mas, continuando a viajem…

Isto tudo não anula uma outra interpretação para a palavra “matar” do Liber Oz, a literal. Digamos que não há como não realizar sua Verdadeira Vontade, se levarmos em conta a hipótese de sermos “partículas de Deus”.

O fato seria que o “ser” não tinha consciência do que era, e portanto não poderia saber qual seria sua Verdadeira Vontade. Eu não creio que alguém faça algo que não quer, o que acontece é que a pessoa não tem consciência de que não queria ou queria determinada coisa. Portanto, se por exemplo, por qualquer motivo uma pessoa mate outra, não importando a situação, esta pessoa estará realizando sua própria vontade de qualquer maneira (A questão não seria uma Vontade Individual e sim Coletiva). Aí entra em questão o fato de que tirando a vida de alguém você está interferindo na “órbita” do indivíduo.

Tentarei descrever agora uma idéia tirada do grande clássico filosófico de Voltaire “Cândido”. No livro havia um filósofo (Dr. Pangloss) que acreditava que “as coisas estão dispostas da melhor maneira possível no melhor dos mundos possíveis”, em resumo o universo era perfeito por si só. Durante todo o livro as personagens sofriam as maiores desgraças possíveis e imagináveis, e conforme sofriam tais desgraças, obviamente contrariavam a idéia de que o mundo estava disposto da melhor maneira possível. Todos somente conseguiam enxergar seus próprios pontos de vista, sem ter a consciência dos acontecimentos como um todo, e ao final do livro o autor tenta passar a ideia de que dentro de todas as possibilidades das personagens, ao final de tudo, as coisas haviam acontecido da melhor maneira possível. É como se fosse a visão de “Deus”, ou melhor, de um Todo, como uma grande teia que interligava uns aos outros.

Surge mais uma questão interessante, além de anular o livre–arbítrio, agora poderíamos anular a individualidade. Pois, se existe (ou existiu) uma unidade de onde tudo surgiu, devemos levar em consideração que tudo que existe leva dentro de si a Vontade desta unidade. O conceito de individualidade surge do ego. O ego agindo como Demiurgo pensa criar as coisas do nada, sem nenhum tipo de influência interior e anterior a ele. Ele somente age assim por não ter consciência de que existe algo além do ego que despeja informações nele e que de certa forma o controla. Podemos aqui usar uma velha e conhecida analogia, a Lua e o Sol, o Ego sendo a Lua, que brilha sem luz própria e o Sol sendo o “Eu Superior” que doa sua Luz para a Lua brilhar. A Lua em sua ignorância sobre si mesma pensa ter luz própria enquanto que toda sua Luz vem do Sol.

Talvez possa estar aí o motivo de tanta analogia à lua como sendo um símbolo de ilusão/Maia/Yesod, de modo que talvez os budistas estivessem certos ao dizer que todo o universo concebível é ilusão. O próprio Crowley em seu Liber 333 (Livro das Mentiras) menciona este fato no capítulo 40 (O HIMOG) quando diz:

Uma rosa vermelha absorve todas as cores, menos o vermelho; vermelho, portanto, é a única cor que isto não é. Esta Lei, Razão, Tempo, Espaço, toda limitação, cega-nos à Verdade. Tudo que sabemos sobre o Homem, Natureza, Deus, é apenas aquilo que eles não são; é aquilo que eles rejeitam como repugnante. O HIMOG é visível apenas na medida em que é Ele imperfeito. Então, todos os que não parecem gloriosos são gloriosos, assim como o HIMOG é Todo Glorioso por dentro? Talvez assim seja. Como, então, distinguir o inglório e perfeito HIMOG do inglório homem da terra? Não distingas! Mas a ti mesmo extingue: HIMOG és tu, e HIMOG tu serás.

Será que todos nós somos lunáticos ? Vivemos no “mundo da Lua”, o mundo das ilusões?

E então, já que a individualidade seria uma ilusão egocêntrica deveríamos ignorá–la em nome do coletivo? Não, de maneira alguma, creio eu. E com esta afirmação entro em contradição, não? O fato é que a individualidade nasceu para trazer à existência as mais diversas facetas daquela primeira Unidade, logo, é mais que essencial que exista “espaço” para as mais diversificadas manifestações desta unidade. Eu diria que a individualidade “ilusória” é a maior aliada da coletividade (unidade) “real”. De forma que quanto mais diversificadas forem as coisas e expressões, maiores serão as probabilidades do universo se manifestar por completo, portanto deveríamos defender a individualidade com unhas e dentes na tentativa de avançarmos àquela unidade novamente, o todo.

Com este raciocínio poderíamos até concluir que é certa aquela descrição do Universo na forma de um oito deitado ou a leminscata, o “símbolo do Infinito”, pois saímos de uma unidade e no fim retornaríamos à ela de maneira que isso sempre se repete. A tal certeza da imortalidade prometida talvez esteja aqui.

Voltando ao que chamamos de Todo ou consciência divina, de onde tudo vem e para onde tudo vai, não podemos deixar de mencionar que os conceitos criados por homens, nada tem de reais, de Verdade Absoluta. Como disse Nietzsche: “para Além do Bem e do Mal”, bem como Crowley (em sua Missa de Fênix na tentativa de ascensão à Deus) diz: “Livrai-me do Bem e do Mal”. Enfim, deveríamos ter a consciência de que a Razão, a Moral, e os Valores são individuais e tão ilusórios quanto nossa limitada consciência, portanto aquele que tira a vida de uma outra pessoa, não está, do ponto de vista divino cometendo um ato “errado”, e sim está apenas cumprindo a Vontade Divina, quer moralistas queiram ou não. Não que eu aprove isto, pois minha vontade “individual” não condiz com isto, mas observando o fato com uma consciência ampliada, não haveria como eu julgar este indivíduo. Creio que este é um dos motivos que torna a tolerância algo tão importante para os Homens.


Autor: Frater Loki