Relato Póstumo

Um dia eu morri, não sei se foi a pressão nas raízes ou se foi a pressão no tronco, não sei se rachei ao meio, ou se fui arrancada, mas eu morri.

Olhei para os lados e não sabia onde estava, via rostos todos muito parecidos comigo, falavam, riam e choravam, ao mesmo tempo, e eu deslumbrada só olhava para tudo isso. Queria voltar, só não sabia para onde.

Eu sentei e chorei, chorei até esquecer o que eu era, eu chorei olhando aqueles seres que tinham a minha cara, eu chorei ouvindo a sinfonia de vozes, todos os tons da minha voz nas bocas desses seres. Comecei a achar engraçado essa cacofonia de mim mesma, comecei a observar com interesse, não mais com distanciamento, nem deslumbre.

Quanto mais eu me esforçava para entender mais rápido eles falavam. O desespero foi tanto que eu gritei “CHEGAAAAAA!”, então o tempo parou! E eu me vi lançada para fora dessa cacofonia.

Onde eu estava? Escuridão a minha volta fiquei cega! Da Luz para trevas, interessante, mas nada inovador – pensei. Pois é, agora estava eu no nada com as mãos cheias de cordas, mas olhava pra baixo e não via onde essas cordas iriam dar, comecei a me sentir presa, sentia que estava amarrada mas não via onde. Senti pena de mim mesma e desse fim terrível, comecei a me lembrar das coisas que eu amava e tinha deixado para trás, e cada lembrança era uma motivação, mas não sabia por que, nem para que. Mas lembrar era reconfortante, mesmo lembranças de dor eram melhores que a escuridão sem rumo. Aos poucos o dia foi nascendo e amei toda essa luz, mas lembrei de amar as trevas, pois ela me proporcionava o prazer de ver a luz. Depois de me sentar e chorar de alegria, que ainda estava presa, mesmo sendo dia, ainda estava presa no nada.

E Odiei a luz pois ela me deixava feliz, e eu não podia ser feliz, estando presa. Ai eu gritei “CHEGAAAAAA!” e tudo começou a rodar e eu me sentia volúvel por não gostar nem da noite nem do dia. Achava que merecia viver sofrendo por que não gostava nem de uma coisa nem de outra, tudo me cansava… e não percebi que essa vertigem era o centro de mim mesma, era a linha divisória de Luz e das Trevas.

Um Caminho maravilhoso, um caminho vivo, mudava o tempo todo, as vezes no tempo de um passo tinha anoitecido e clareado. E eu me divertia, eu corria, tentando ganhar do Caminho, e não percebi o óbvio.

E nisso me cansei também, não me interessava mais as constantes mudanças e… voltou a vertigem. Pela terceira e última vez eu quis gritar “Chegaaaa!”, mas ao invés disso Eu parei. E no meu silêncio todos pararam, e me ouviram.

Fui coroada e cada pedaço de mim rendia sua homenagem.

Meu coração se entregou a mim, falando: “eu sou vc, agora que vc já sabe, tome pra si a força do tempo, me faça trabalhar ao seu comando” e parou esperando uma resposta.

Eu disse “Trabalhe, pare de sonhar e seja útil. Cresça pois seu lugar só sera garantido no seu crescimento”.

Todos se encolheram e demonstraram claramente a reprovação.

“Ela tá louca!” — Falou um dos seres

“Perdeu o juízo! Como vai viver sem coração?” — ouvi outro ser

“Estava tão perto…” — um outro gritou

Mas quando eu me mantive serena e imperturbável, as vozes reconheceram em mim a sua rainha e não mais se questionaram.

Foi um espetáculo sublime cada parte se apresentando e recebendo meu comando, células, fios de cabelo, personalidades formadas, átomos, elementos, órgãos, sentidos, sentimentos, enfim, tudo o que eu sou se apresentando.

Depois da apresentação eu resolvi arrumar tudo. E agora, por onde começar?

Foi uma loucura, primeiro eu achava um pedaço emocional grudado em um pedaço físico, depois eu encontrava dois emocionais rolando de tanto se baterem. Sentei e olhei, o que eu faço? Separei cada classifiquei cada pedaço, sem dar utilidade ainda. Depois fiquei olhando, o que faz parte do que? Bem, vamos botar ordem nesse Chaos, mas como? Nesse momento um deles brilhou rapidamente e se apagou. Fiquei olhando e mais um brilho rápido, de repente parecia uma chuva de estrelas de brilho fulgás, que coisa linda, formavam desenhos que se apagavam tão rápido que eu tinha dúvidas de te-los visto mesmo.

Era como se os desenhos estivessem contando uma história, assim brilhando aqui e ali fui me descobrindo nesses desenhos, eram recordações… era o Eu voltando à consciência. E assim, brilho após brilho eu fui me refazendo e juntando os pedaços de mim. Quando não havia mais nenhum pedaço brilhante é que percebi os pedaços escuros.

E caí. Cai dentro da escuridão de mim mesma… Caí e caí e não acabava mais a queda.

E era escuro, todos os brilhos já haviam se juntado e restava a escuridão agora total com todas as suas lamurias, queixas, desejos de vingança, dores, ironias, agressões. Tive Vontade de me entregar a esse lado tão maquiavélico, desesperado, brutal. Me reconheci nessa escuridão.

A morte da árvore Negra

Quando a árvore translúcida morreu, eu me retorci de dor, a separação das raízes arrancou parte de mim. E eu rasguei, agora sem luz só na escuridão desordenada e inaceitável de mim mesma. Não havia pedaços para eu juntar, não havia coisas a resolver. Era eu e aquilo, frente a frente. Como se fosse um espelho parado no tempo, uma fotografia que amarelou de tanto ficar esquecida no fundo da gaveta. Agora eu tinha que conhecer meu lado sombrio, tinha que domina-lo e isso não era muito animador. Esse lado era todo organizado, meticuloso em sua maldade. Se apresentou como o Senhor, me desafiou e disse que ele era perfeito e que eu o havia deixado assim. Disse que tinha chegado a hora do golpe de estado e que eu seria presa fácil. Perdi a consciência. Voltei ao meu estado de desconhecimento total, era a sombra, mas sem a luz… e não me movia. Esperava, esperava e a consciência da sombra cada vez mais forte. Até que eu não soubesse quem era eu.

Lutava, mas assim , sem mais nem menos, sumia. Lutava mais perdia. Não posso aceitar isso, eu não sou isso…

Quando de tanto lutar na escuridão eu me resignei, uma luz absurda invadiu o espaço, iluminando tudo ao meu redor. Fiquei cega por alguns momentos e quando aos poucos minha visão se acostumou pude ver de relance dois seres.

A Grande União

Um ser era luz, era a fonte de toda a luz, o outro era a ausência da luz. Parados em forma de triângulo eu e os dois seres ficamos ali, apenas se olhando, se analisando e esperando o momento do confronto. Quem daria o primeiro passo? Senti uma corrente elétrica percorrer meu corpo e vislumbrei a luz e a sombra unidas e tudo desapareceu. Fiquei flutuando no Nada ate que ouvi meu nome.

Quem me chamava eram dois fantoches, lindos e inertes.

Eu não sabia o que eles queriam, não sabia o que fazer para acabar com a agonia daqueles seres tão lindos. Tive Vontade de ajuda-los, uma ânsia tão grande, como se aqueles seres fossem, de alguma maneira, parte de mim. E que cabia a mim não machuca-los. Eles me contaram que viviam livres, sem cordas, corriam, cantavam brigavam, mas se amavam. Um dia sem mais nem menos, receberam a visita de seu pai, que os transformou em duas esferas pequenas, e disse-lhes que assim que eles crescessem, eles entenderiam a sua missão. Avisou que seria um caminho doloroso mas que no final eles se juntariam a ele, e conheceriam a face de Deus.
Contaram casos engraçados, casos tristes, amorosos, falaram da dor, falaram das discussões, e eu ouvia com uma sensação de estranhamento, percebia os exageros, fazia perguntas e eles respondiam clareando a história, esclarecendo detalhes que passaram despercebidos. O engraçado é que a história era dos dois, cada um tinha uma visão da história, mas a história era a mesma, as atitudes as mesmas, era como se aqueles seres fossem um só e não soubessem. Comentei isso com eles, e eles maravilhados riram da minha observação. Nos somos irmãos, um deles explicou. Mas só vivemos se estivermos unidos. O outro explicou: É assim, se eu preciso tomar uma atitude, tenho que estar de acordo com meu irmão, para que ele me sustente no momento. Nós cedemos um ao outro para que possamos trabalhar juntos. Se um de nós se omite ou não pode fazer sua parte, o outro se desequilibra e não consegue fazer. Se nos unimos, realizamos perfeitamente a ação.

Fiquei pensando durante um tempo, e eles continuaram…

Agora nós conhecemos a Face de Deus, entendemos a nossa missão, mas não podemos cumpri-la. Por isso estamos jogados inertes no Nada, esperando…

Esperando? Perguntei eu assombrada. Esperando o que?

Desiludidos eles me responderam: Esperando que Deus se reconheça como tal.

Como assim? Perguntei. Deus não sabe que é Deus? É isso? Vocês estão brincando comigo.

Eles responderam que Deus tinha esquecido que era Deus, no momento em que encontrou com eles.

Eu perguntei… “Ah, tá..Deus esteve com vocês e não sabia que era Deus. E vocês não falaram para ele isso?”

Falamos — eles responderam — Mas você não entendeu.

Epílogo

“Quando Akasha se tornou conhecida, Práná veio habita-la.”

A garotinha abre os olhos, levanta-se e vê a si mesma. Aceita seu destino e se regozija em saber que pode cumpri-lo. Olha em volta e reconhece tudo o que sofreu e amou para chegar onde chegou. Vê o que precisa mudar, e começa seu trabalho.

Em algum lugar no tempo, Três seres se tornam Um.


Autora: Fênix

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