Os Escravos da O.T.O.

Uma das primeiras coisas que um pretenso Thelemita aprende a dizer é aquela famosa frase “os escravos servirão”. Fala isso a três por dois, qualquer coisinha é pretexto para o sujeito apontar o dedo para alguém tachando o pobre coitado de escravo e vaticinando sua eterna servidão. Isso porque mal aprendeu a recitar a Lei de Thelema, depois de uma ávida leitura do Livro da Lei, ele já se considera livre, não necessariamente nessa ordem, da Igreja Católica, do Capitalismo, dos pais e de toda e qualquer noção de autoridade. Pronto, coloca um crachá de Thelemita no peito e proclama-se rei, sendo que todos os outros são reles escravos que devem curvar-se à sua vontade soberana. “Afinal”, argumenta ele, “a lei diz para fazermos o que quisermos”.

Aí tem a O.T.O… Ordem Thelêmica, iniciações, Graus, patentes, ritos e a traquitana toda. A primeira coisa que há de se imaginar é que tem reis pululando nessa tal de Ordem, certo?

Errado.

Engana-se muito quem pensa que a O.T.O. é uma Ordem de reis. Muito pelo contrário, é uma Ordem de escravos. Sim, isso mesmo, escravos. Por favor, se você é um rei, não venha para a O.T.O.! Aliás, se você já é um rei, para que diabos você entraria na O.T.O., ou em qualquer outra Ordem? Acontece que aqui nós só temos escravos e só queremos que entrem outros escravos. Então, antes de pensar em entrar em uma Ordem Thelêmica, olhe para seus próprios pulsos. Se lá encontrar correntes, então vá em frente e una-se à Ordem de seu gosto. Caso não encontre, melhor pensar em outra coisa para passar o tempo.

Só que tem uma coisa…

Existem escravos e escravos. A maioria das pessoas simplesmente encontra-se tão completamente enredada em suas vidas de sonho e ilusão que simplesmente não é mais capaz de ver os grilhões a que estão presas. Tão profunda é essa ilusão que, pelo contrário, as correntes da escravidão são vistas até mesmo como as mais louváveis qualidades do indivíduo. E assim a pessoa passa a apegar-se cada vez mais à sua servidão, sentindo-se mais e mais virtuosa quanto mais se escraviza. É uma espiral ascendente (ou descendente). Chega um ponto em que o pobre escravo, atado em milhares de correntes douradas vê a si mesmo como tal forma virtuoso que, ora bolas, passa a sentir-se um rei em plenitude. Outros escravos, porém, não caem na vaidade de ver suas algemas como lindos braceletes e reconhecem-nas como o que elas são, um instrumento de submissão.

Mas aí vem uma pergunta. Se as algemas estão presas em correntes (não seriam algemas se não estivessem), onde está presa a outra ponta da corrente? A maioria das pessoas olha aquele amontoado de elos e cadeias e, sem se dar ao trabalho de tentar desembaraçar aquilo tudo, vai logo adivinhando o lugar “óbvio” para a outra ponta. Tem os que dizem que é essa ou aquela religião. Outros palpitam que é a televisão. O meu favorito é “O Sistema” (esse desconhecido). Mas sempre é interessante ver a reação daqueles que se propõem a seguir e desembaraçar sua corrente e descobrem que a outra ponta está… na outra algema!

É um pensamento óbvio o de que “escravo” é algo que poderíamos, com o perdão dos gramáticos, chamar de um “substantivo transitivo”. Um escravo é escravo de alguém. Aquele Thelemita por correspondência do qual falamos no início desse texto poderia dizer, em um laivo de genialidade: “um escravo é escravo de um rei”. Porém, na verdade somos todos, absolutamente todos, escravos de nós mesmos. Somos escravizados por nossa incapacidade de encarar o mundo como ele é e não como gostaríamos que fosse. Somos escravizados pela nossa vaidade, nossa empáfia que cria uma imagem nossa maior do que a real. Ou mesmo por uma exacerbada humildade, que nos acorrenta não à outra mão mas sim ao pé, com curtas correntes. Somos escravizados por nossos sonhos, de nossas ilusões, pela identificação que sentimos por eles. E, assim escravos, dormimos todos.

Não há reis. Nem na O.T.O. nem fora dela.

O que existe são apenas três tipos de escravos; os que não se reconhecem como tal, os que não apenas não se reconhecem mas ainda envergam mantos puídos de púrpura, e os que se reconhecem como escravos e almejam a liberdade. E é por isso que eu digo: a O.T.O. é uma Ordem de escravos, onde cada um de nós busca, pela disciplina, pelo exercício constante, pela honra, pela auto observação desapegada, conhecer cada elo das correntes que nos prendem para, então, um dia podermos quebrar essas cadeias e nos tornarmos homens e mulheres integralmente. Só assim poderemos, quem sabe, almejar à realeza, livres das ilusões e sonhos de Maya.

Sim. Todo Thelemita é um rei. Como todo ser humano o é. Mas reis forjam suas coroas com o aço de suas algemas.


Autor: Frater Horus Menthu