Os Deuses Sacrificados

Um dos símbolos mais presentes nas culturas humanas é o do sacrifício do pendurado, expresso no Arcano Maior “O Pendurado”. É um arquétipo que pode ser visto tanto em Wottan dependurado na árvore Yggdrasil quanto em Jesus crucificado. Este sacrifício visa não uma reles punição de um criminoso mas sim uma transmutação do humano no divino. Wottan adquire o conhecimento das runas, Jesus eleva-se ao Paraíso. É sempre um eliminar da crisálida humana para o surgimento da divindade plena. É por isso que este tipo de punição sempre esteve associado aos assassinos, criminosos que ousaram tomar para si o atributo divino sobre a vida e a morte.

Ao ascender de estágio perde-se a humanidade. Aos olhos dos que ainda estão, por assim dizer, ao pé da forca, pode-se ter assumido uma condição divina ou demoníaca, mas sempre não-humana. E esta condição é, quase que invariavelmente, obscena aos olhos do vulgo. A divindade sempre provoca no ser humano um sentimento de temor. Tem-se a ideia de sua força infinita, seu domínio sobre os assuntos da vida e da morte. Sua presença entre os mortais, em todas as mitologias, é sempre motivo de perturbação. Quando os deuses interferem nos assuntos dos homens, raramente alguém não sairá prejudicado ou, ao menos, com sua vida completamente modificada. É esse o poder divino, de interferência plena, que nos causa tanta apreensão e é por isso que tanto cuidado é tomado ao se lidar com eles. Este medo instintivo do ser humano leva-nos ao sacrifício da divindade na árvore, ao assassinato ritual da figura divina por conta de sua húbris.

Entretanto há dentro de cada ser humano o potencial divino. Somos todos deuses em gestação e esse poder de modificar, o poder da vida e da morte. Porém a idéia do sacrifício da divindade está de tal forma cristalizada em nossos pensamentos que, tão logo o deus começa a brotar dentro de cada um de nós, nossa primeira reação é assassiná-lo, de modo que possamos voltar à nossa acomodada situação de meros mortais, sem que nos preocupemos em ser tachados de desumanos e sem o medo de sermos sacrificados por aqueles que nos rodeiam.

E deuses são sacrificados na madeira, seja na árvore ou na cruz. Por que isso? Por que a divindade deve ser dependurada? A simbologia da árvore é fundamental para isso. Em seu livro “Estudos Alquímicos”, no capítulo “A árvore Filosófica”, C. G. Jung coloca que a árvore simboliza a própria vida humana, a psique desenvolvendo-se para a formação da consciência mas mantendo sua essência básica protegida das manifestações do ego. A árvore é também o impulso humano em direção à individuação, o qual avança sempre sem a atuação da consciência. A idéia da árvore é análoga à própria vida humana, crescendo em direção a uma consciência maior. Desta forma, dependura-se na árvore aquele que ousa crescer além da humanidade. Pois assim ele se faz igual à árvore, crescendo muito mais alto do que as cabeças dos homens.

Outro aspecto do dependuramento quanto sacrifício ritual é que o sacrificado está suspenso no ar. Em vários sistemas mitológicos o ar é diretamente ligado ao mundo espiritual. Ao se pendurar, a divindade-por-vir sai do contato com a terra, com a matéria, e se coloca plenamente com as qualidades do espírito. Esta situação de suspensão está também ligada à de imobilidade dinâmica, quando qualquer movimento em uma direção provocará automaticamente um movimento na direção oposta, gerando um equilíbrio dos opostos. Em termos mágicos, é a situação conhecida como o Abismo, o mergulho em Daath que o mago deve fazer para seguir seu caminho rumo à ascensão. Nesta situação de suspensão, a angústia do balançar só pode ser rompida pela completa imobilidade, quando o corpo cessa suas atividades perturbadoras e o espírito pode fundir-se ao ar espiritual à sua volta sem interferências. Ao contrário, enquanto mantivermos um debater inútil estaremos apenas nos forçando a uma situação cada vez mais intensa de conflito de opostos, a um sofrimento que terminará por esterilizar nossas vidas.

Desta forma, a passagem do humano ao divino se faz através da morte por suspensão, morte esta simbolizada pela não atividade do corpo, a qual reflete-se na mente. Ao cessar esta atividade, o espírito toma conta e ascende.

Sacrificamos assim, o divino nascente dentro de nós como uma atitude de medo frente ao que ele representa, o mesmo medo que sente o jovem ao perceber que está chegando a hora de sair da casa de seus pais e tornar-se dono de sua própria vida. Entretanto este sacrifício acaba por tornar-se justamente o método que a divindade interna utiliza para tornar-se plena. Se o processo é compreendido, e o sacrifício não é visto como uma fonte de sofrimento e sim de aprendizado, não se passa pelo ciclo de dor e angústia mas sim adquire-se a serenidade necessária para o surgimento da divindade interna a cada um de nós. Por outro lado, se trazemos dentro de nós a ideia de que a dor e o sofrimento são as ferramentas para expurgarmos o “übermann” nietzichiano de dentro de nós, encarando esta passagem como um sacrilégio ou um pecado, então seremos fatalmente lançados ao ciclo de agonia e sofrimento que nós mesmos termos buscado e o deus não terá sido sacrificado em sua própria honra mas, tão somente, assassinado.


Autor: Frater Her-ur