O Método da Ciência

Uma das (muitas) coisas que diferencia Thelema (e Magick) de outras correntes místicas e ocultistas provém deste simples lema colocado por Crowley: “o método da ciência, o objetivo da religião”. Ainda que o “objetivo da religião” possa ser motivo para muita discussão, não é desta parte que gostaria de falar agora. Quero falar do princípio da frase: “o método da ciência”. Até porque é muito mais comum pessoas que se envolvem com misticismo e ocultismo se preocuparem mais com o objetivo do que com o método, mais com a espiritualidade do que com o caminho até ela. Porque uma das coisas que Crowley mais dava importância era justamente na questão de que o conhecimento não deveria ser baseado apenas em achismos, intuições, visões ou seja lá o que for. Ele acreditava que era necessária uma comprovação do conhecimento e das experiências para validar o processo. Mas como podemos entender melhor o que isso significa?

A primeira coisa que devemos buscar entender é o motivo de Crowley ter esse pensamento. É importante contextualizarmos suas razões. E olhar um pouco para quando e onde Crowley viveu é a chave para isso. Ele viveu em uma época em que não apenas o magia estava passando por uma época áurea, com a Teosofia, a Golden Dawn e tantos outros grupos instaurando um novo pensamento mágico na Europa. Mas também em uma época em que, de forma quase complementar, o pensamento científico estava começando um crescimento que iria desaguar na revolução técnica e científica da metade do Séc. XX e.v. Einstein e a Relatividade alteraram os paradigmas do macrocosmo enquanto Plank, lançando os princípios da Mecânica Quântica, nos apresentava todo um novo e surpreendente microcosmo. Sturtevant com o primeiro mapeamento genético de um cromossoma abria as portas para uma nova forma de pensar a própria vida. Todo um mundo novo estava sendo aberto através do uso da razão. Em alguns casos, literalmente, com o modelo expansionista do universo proposto por Sitter e Freidmann. Freud, Jung, Ebbinghaus e tantos outros abriram outros campos de estudo da mente e da alma humana, com a psiquiatria e a psicologia. E muitas dessas descobertas, ao invés de negarem princípios há muito conhecidos pelo ocultismo e pelo misticismo pareciam corraborá-los. Mas, mesmo assim, a sombra da superstição dava mostras de cair sobre os ocultistas, que preferiam negar a Ciência ao invés de abraça-la. Tal como os cientistas olhavam com desdém para o mundo místico. Uma fenda que parecia intransponível era alargada ainda mais.

Crowley, entretanto, abraçou com alegria ambos os lados da questão. Ele entendeu que ocultismo e ciência não eram áreas adversárias e sim complementares. Atuando em áreas diferentes do Ser Humano e da forma como esta criatura aborda o mundo e a si mesma podiam andar lado a lado apoiando uma à outra, sem que houvesse um conflito necessário. Mais que isso, percebeu que a Ciência é também uma ferramenta de múltiplos usos que pode ser útil também onde seus objetivos difiram.

Mas, qual é essa Ciência cujos métodos pretende-se o uso?

A palavra em si possui muitos aspectos e interpretações. E, por isso, muitas vezes é mal compreendida e mal utilizada. Em geral, tende-se a entender que Ciência é um bloco de soluções imutáveis e respostas finais a qualquer questão, uma lâmina fria que separa o conhecimento real da superstição e do irreal. Porém esse é um entendimento errôneo. É importante compreender que a Ciência não clama para si a totalidade dos conhecimentos ou da verdade. Idealmente falando, a Ciência é uma busca constante por respostas a questionamentos e mesmo estas respostas devem ser sempre questionadas. Na Ciência não deve haver palavras escritas em pedra. Obviamente, esta mesma Ciência é feita por homens e mulheres de carne e osso. E, sendo seres humanos, cientistas estão sujeitos às mesmas falhas que qualquer outra pessoa. Eles e elas também escolhem seus dogmas pessoais, fixam suas ideias favoritas, seguem caminhos que confirmem suas posições e conceitos pessoais. O escritor Arthur C. Clarke dizia que “como qualquer pesquisador recém saído da faculdade sabe, cientistas acima dos cinqüenta só servem para reuniões de diretoria e devem ser mantidos fora do laboratório a qualquer custo”. Não podemos confundir os erros naturais cometidos por um ou uma cientista com uma falha intrínseca do pensamento científico. O mesmo serve para ocultistas.

Em tempo… Isso significa que Thelema (ou Magick) é uma Ciência? Sim. É. Se considerarmos Ciência também como a capacidade de se obter conhecimento sobre algo. Mas isso significa que é uma Ciência como a Matemática ou a Química? Não. Não é. E é importante ter esse pensamento em mente para que não tenhamos aqui uma aberração. Primeiro porque os fatos que lidamos dentro das chamadas disciplinas espiritualistas ou ocultistas são mais sutis, menos objetivos. E segundo porque os objetivos são distintos. Por isso usamos o método mas lembramos que os resultados — ou os objetivos — são outros.

Entendido o que é essa Ciência que Crowley fala, quais seriam os métodos aplicáveis para que possamos atingir os objetivos da Religião? Basicamente, a Ciência apoia-se em dois grandes princípios a serem seguidos: a falseabilidade e o método científico. Vejamos um pouco de ambos.

Falemos um pouco da falseabilidade. Até o princípio do Séc. XX e.v. a Ciência era muito pautada pela ideia da verificabilidade. De forma simples, isso significa que só se considerava uma coisa verdadeira se esta pudesse se comprovada, seja pela observação (verificação empírica) ou pela lógica (demonstração). Se algo não podia ser fisicamente comprovado ou demonstrado pela lógica matemática, esse algo não deveria ser considerado como real. Na melhor das hipóteses, era colocado no campo da metafísica. Aliás, um dos objetivos do Círculo de Viena, um dos principais grupos a defender o princípio da verificabilidade, era justamente manter uma separação clara entre Ciência e Filosofia (ou qualquer outra coisa que não pudesse ser verificável).  Mas isso tinha um problema: todos os enunciados científicos teriam de ser feitos a posteriori, ou seja, deveriam ser constatações de ideias já existentes. E isso, segundo Karl Popper, era um dos grandes problemas. Ele argumentava que a orientação da Ciência previamente por uma hipótese a ser comprovada é forçosamente baseada no método indutivo. Isso significa que o cientista vai selecionar de um universo de dados aqueles que comprovem a ideia prévia, gerando apenas um viés de confirmação, e, portanto, inviabilizando um avanço imparcial das ideias. Popper, então, propôs que, ao invés de buscar pela verificação das experiências empíricas que comprovassem a hipótese, se fizesse justamente o oposto: que se buscassem evidências de que a hipótese estaria incorreta. Desta forma, enquanto a hipótese resistisse à refutação, ela poderia ser considerada comprovada. Isso estabelece uma crítica das hipóteses científicas, e mesmo das teorias, através da qual nenhuma ideia pode ser considerada como uma verdade definitiva. Uma vez refutada pela falseabilidade, uma teoria deve ser descartada e novas respostas devem ser procuradas. Respostas essas que devem também ser falseáveis. Por outro lado, uma ideia que não possa ser falseável deve ser considerada como um mito ou um dogma e não deve ser considerada como científica.

Magickamente falando, isto é muito próximo ao princípio Thelêmico do não estabelecimento de dogmas. Nenhuma verdade deve ser considerada como absoluta se não puder ser comprovada pela experiência pessoal. Em Thelema a superstição e a ilusão (mesmo a auto ilusão) também devem ser descartadas. O princípio da falseabilidade nos ajuda neste sentido a partir do momento em que paramos de tentar buscar por elementos que nos confirmem aquilo que queremos que seja confirmado e passamos a buscar as falhas que permitam nos apresentar a experiência como um fruto de nosso ego ou de nossa imaginação, por exemplo. Ao passar por uma experiência de caráter mágicko tendemos a interpretar o sucesso na mesma como uma demonstração de nosso poder e conhecimento, confirmando por vários dados termos atingido o que desejávamos. Mas a falseabilidade nos ensina a fazer exatamente o oposto. Será que o ocorrido não foi resultado de outros fatores que nada têm a ver com o meu ritual? Que outras forças ou atividades poderiam estar em ação naquele momento que trariam um resultado igual ou semelhante ao que eu buscava? Será que eu não errei em algo na operação e o resultado foi meramente uma coincidência (sim, elas existem)? São vários fatores que podem mostrar ao praticante que um resultado não foi atingido por suas ações. Conhecer esses fatores traz uma visão mais realista dos resultados de uma experiência e permite o aprendizado do erro e de como lidar com ele. Ou mesmo ao lidar com a parte teórica, ao invés de se procurar a confirmação de uma ideia, buscar seus furos, suas falhas de lógica ou simbologia. Mesmo processo, mesmos benefícios.

A segunda ferramente que a Ciência traz para o ocultista ou místico é o método científico. Menos filosófico do que o princípio da falseabilidade, o método científico é um conjunto de regras a serem seguidas durante a execução de um experimento. Ainda que utilizado primariamente pelas ciências físicas, sua abrangência e flexibilidade permitiram sua adaptação para outros ramos do conhecimento humano — Magick inclusa —, tanto para a criação de ideias novas quanto para a reciclagem das antigas. Esse método começou a surgir por volta do Séc. X e.v. com o trabalho do cientista árabe Abu Ali al-Hasan Ibn Al-Haitham (Alhazen), que ensinava que uma hipótese deveria sempre ser provada por experimentos, através do uso de procedimentos sistemáticos que poderiam ser reproduzidos por qualquer um. Avançando no tempo e em direção à Europa, René Descartes propôs que se deveria chegar à verdade através da dúvida, mas uma dúvida sistematizada que decomporia um problema em suas partes componentes, definindo o processo de análise, o que permitiria que uma questão complexa fosse analisada a partir de seus componentes mais simples, de forma gradual. Ao final, o conjunto de conclusões deveria ser unificado em um processo de síntese. Isso estabeleceu um método básico através do qual toda pesquisa deveria ser feita, um método com quatro postulados simples:

“O primeiro consistia em nunca aceitar, por verdadeira, coisa nenhuma que não conhecesse como evidente; isto é, devia evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; e nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão claramente e tão distintamente ao meu espírito que não tivesse nenhuma ocasião de o pôr em dúvida.
O segundo – dividir cada uma das dificuldades que examinasse em tantas parcelas quantas pudessem ser e fossem exigidas para melhor compreendê-las.
O terceiro – conduzir por ordem os meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e fáceis de serem conhecidos, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo certa ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.
E o último – fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais, que ficasse certo de nada omitir.”

(DESCARTES, René. Discurso do método. Tradução, prefácio e notas de João Cruz Costa. São Paulo: Ed de Ouro, 1970)

De forma simples, o atual método científico pode ser explicado através do seguinte diagrama:

O processo começa com a observação de algum tipo de fenômeno. Este fenômeno, então, passa a ser observado com mais cuidado, de forma metódica e controlada, de forma a isolá-lo de “fontes de contaminação”, ou seja, de outros fenômenos que, interagindo com ele, poderiam modificar sua natureza básica. A princípio, não são tiradas conclusões, apenas se registram os fatos, que precisam ser comprováveis. Ou seja, não pode haver dúvida de que eles sejam não apenas reais como ligados ao fenômeno que se está estudando. Comprovados os fatos, é feita uma análise dos mesmos, a forma como se relacionam entre si e com o fenômeno como um todo, busca-se uma compreensão de todos em particular e do conjunto como um todo. Com isto em mãos, levanta-se uma ou mais hipóteses, uma forma possível de se explicar o fenômeno através dos fatos amealhados. Estas hipóteses devem ser falseáveis e testáveis. Caso a hipótese resista à falseabilidade e passe em todos os testes executados, ela é tornada uma teoria. Porém o processo não para por aí. Não basta uma teoria explicar um fenômeno. É preciso que se compreendam suas implicações, o que significa esta teoria em termos gerais e em situações específicas. Também é necessário que se possam fazer previsões através dela; ou seja, que extrapolações do fenômeno original possam ser feitas e se testar a viabilidade dessas previsões. Isso é feito através de novas análises, novas experiências, que passarão também por testes e devem ainda resistir à falseabilidade para que novos fatos sejam gerados. Estes novos fatos, então, devem ser comparados com as previsões da teoria formulada. Caso os novos fatos comprovem a teoria, esta é considerada válida. Caso contrário, a hipótese original deve ser revista ou refutada. E começa tudo de novo. E mesmo uma teoria comprovada por este método ainda não pode ser considerada definitiva. O princípio da falseabilidade continuará a ser aplicado sobre ela e ela só será válida enquanto resistir a ele. Basicamente, a Ciência progride não pela comprovação das ideias mas por sua refutação, que gera a necessidade de novas ideias.

Em termos de se obter o resultado da Religião, o método científico pode (e deve) ser utilizado da mesma forma. Ao se verificar um fenômeno, seja de natureza física ou não, este deve ser observado de forma crítica. Os fatos a respeito dele devem ser anotados sem interpretações ou visões pessoais (eis uma das importâncias do Diário Mágico). Só depois de colhidos estes fatos deve-se buscar a interpretação dos mesmos para a formulação de uma hipótese ou uma conclusão, sempre de maneira impessoal. Formulada a hipótese sobre o ocorrido, buscam-se as falhas no processo, as inconsistências, as armadilhas do ego e tudo o mais que poderia falsear essa hipótese. Buscam-se correlações com outros eventos, repete-se a experiência anotando-se os novos resultados e suas variações, trocam-se experiências com outros praticantes para verificar se, descartados os aspectos intrínsecos do praticante, resultados semelhantes são obtidos e por aí vai. O uso desta metodologia de trabalho afasta o ego do processo, protegendo-nos, ainda que não nos livrando completamente, de ilusões que desviariam o magista de resultados comprováveis e certos em direção a uma fantasia autoimposta.

De uma forma ou de outra, é importante considerar que tanto o princípio da falseabilidade quanto o método científico são ferramentas, não regras rígidas a serem seguidas em toda e qualquer situação. Como toda ferramenta, eles não servem para tudo e seu uso indevido pode ser tão prejudicial quanto o seu descarte completo. Ambos os métodos são para serem usados quando estamos lidando com experiências realizáveis e, por assim dizer, com resultados detectáveis, tais como rituais, meditações, fenômenos repetitivos etc, bem como no estudo teórico da magia. Trabalhos que envolvam esferas de ação como mais sutis tais como experiências gnósticas ou trabalhos de fundo emocional não se enquadram, obviamente, no escopo destas ferramentas.

Há ainda um terceiro e último ponto a sere considerado: a honestidade intelectual. É aqui que tanto cientistas quanto magistas muitas vezes se perdem. Quando passamos a considerar que temos todas as respostas e que nossas respostas são verdades definitivas não há ferramental que nos afaste do engessamento mental e espiritual. Sem a honestidade de reconhecermos que aquilo que conhecemos e aceitamos pode estar errado jamais faremos um progresso verdadeiro; seja no campo da Ciência ou da Magia. Carl Sagan disse, em seu livro, O Cérebro de Broca (1979), que “alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”. Mas também disse, no magistral O Mundo Assombrado por Demônios (1997) que “a ausência de evidências não é a evidência de ausência”. Isso significa que, tanto para um cientista quanto para um magista, na ausência de evidências de algo que ele esteja buscando ou de algo que uma outra pessoa esteja questionando — e na falta de evidências da não existência daquilo — a resposta mais honesta e mais importante que se pode dar é simplesmente… não sei.


Autor: Frater Inanis