O Fim da Infância

O ser humano é uma criatura teimosa. Muito teimosa. Claro que é bem comum que velemos essa teimosia sob o nome mais prazeroso de “persistência”. E, como tudo, isso tem um custo. Um custo que muitas vezes não conseguimos ou fazemos questão de não ver, achando que ele simplesmente não existe. Mas existe. E não temos como nos livrar dele.

Em Thelema há muitos ditados e um deles reza que “quando estamos fora do caminho de nossa Verdadeira Vontade, obstáculos se erguem à nossa frente”. Isso é só uma outra forma de se dizer que a própria vida se encarrega de nos mostrar quando estamos tentando forçar a mão com algo que não está neste caminho. Por vezes ela nos mostra isso com um tapa na cara. Por vezes, com uma espada em nossas costas. E então nos vemos em um estado de dor, desespero, raiva ou qualquer outra coisa do tipo. Mas ao invés de analisar a situação de forma imparcial, normalmente, preferimos respirar fundo, limpara a poeira e “sermos persistentes”. O que é uma estupidez.

No tarô são três cartas que dão luz a esses “tapas da vida”: a Fortuna (Atu X), a Morte (Atu XIII) e A Torre (Atu XVI). Estas cartas trabalham em uma forma sequencial em termos de aprendizado de vida. A Roda da Fortuna, carta regida por Júpiter, representa o fluxo das coisas na vida como um todo. a Esfinge no topo, neste contexto, traz o conceito da inteligência necessária para se analisar e compreender esse fluxo através de seus quatro Poderes (saber, ousar, querer, calar). Já Tiphon e Hermanubis, as duas criaturas nas laterais da Roda, nos mostram as energias que geram esse fluxo; respectivamente a força de destruição advinda da inatividade e da ignorância e a força da mudança, proveniente da inquietação e do conhecimento. Ao nos depararmos com a Fortuna em nossas vidas temos a sensação da necessidade de mudança, aquele “sopro” de intuição que nos faz dar um pouco mais de atenção aos pequenos “desastres” e infortúnios que arruínam nossos planos. Se soubermos usar a inteligência que a Esfinge nos traz, percebemos que estamos no caminho errado e ajustamos nosso rumo sem maiores sofrimentos. Mas preferimos ser persistentes.

É quando a vida nos traz a Morte. Neste aspecto de estudo, a força mais presente na carta é Saturno: o tempo de finalizar, quando sua foice corte impiedosamente as linhas que tecemos para nos unirmos a um destino que não é nosso. A Morte traz a mudança inevitável. É quando o fogo da vida já cercou completamente o escorpião, cuja cauda, ressecando-se, curva-se até que o ferrão injete em seu corpo o veneno de nossas escolhas. O processo aqui já é menos ligado ao nosso controle. O que tiver de ser encerrado, certamente o será. E é justamente essa falta de controle que nos causa o maior sofrimento e dor. Sem a Esfinge para guiar nossa análise, tendemos a culpar o outro, o universo ou seja o que for pela destruição de nossos sonhos e esperanças. Mas a culpa é tão somente nossa. Nossas escolhas, desligadas de nossa Vontade, precisam ser purgadas. Mas preferimos ser persistentes.

A vida é paciente mas toda paciência tem um limite: chega a hora da Torre. E a Torre é o símbolo da catástrofe na vida, o desabamento de um castelo cujas fundações já apodreceram. Da boca de Hórus surgem as chamas que a tudo queimam, sem deixar nada intacto. Aqui não há mais nada a se fazer. Temos tanta chance de lutar contra isso como uma criança em deter um maremoto com as mãos. Estamos completamente indefesos frente ao desastre. E vemos todos os nossos sonhos se tornarem cinzas amargas, nossas esperanças e desejos consumidos implacavelmente, nossas vidas reduzindo-se a dor, desesperança e frustração. Mas mesmo em meio aos males da caixa de Pandora ainda se encontrava a esperança. E qual é essa esperança, afinal?

É o aprendizado.

Face à mais completa devastação de tudo aquilo que sustentava nossas ilusões, resta-nos deixar de lado o orgulho e entender que não somos persistentes. Somos apenas teimosos demais para aprender as lições que a vida nos apresentou ao longo do tempo. Precisamos aprender que nem tudo nos cabe. Normalmente acreditamos que em nossas vidas temos um direito inerente ao prazer, seja qual for essa fonte de prazer. Este pode manifestar-se de forma grandiosa na forma da busca pelo sucesso em uma profissão, do desejo de ser amado e formar uma família. de ter amigos e amados em quem possamos confiar. Ou pode ser algo mais simples como o desejo por um carro ou uma coleção de selos. Precisamos aprender que certas coisas simplesmente não fazem parte de nosso caminho.

Isso pode parecer cruel ou fatalista, mas é uma realidade ainda que tendamos a negá-la. Uma pessoa que não tenha o dom para as letras jamais ganhará um Nobel de Literatura; buscar isso só será uma fonte de frustração. Uma pessoa sem a genética adequada jamais será um campeão olímpico; buscar isso pode até ser perigoso fisicamente. Uma pessoa destinada à solidão jamais terá uma família; insistir nisso apenas resultará em decepções. Porém vivemos em uma cultura que nos ensina que “podemos conseguir o que quisermos se nos esforçarmos bastante”. Isso não apenas é um erro, é um erro estúpido. Pois com isso tudo o que conseguimos é nos cercar de ilusões. E, cedo ou tarde, virão a Fortuna, a Morte e a Torre nos mostrar a futilidade dessas ilusões.

Podemos aprender cedo e, por mais que seja muitas vezes triste, deixarmos para trás as ilusões e aceitarmos pragmaticamente que a vida é o que temos e podemos e não o que desejamos. Que insistir naquilo que não está em nosso caminho só nos trará decepção e dor. Ou podemos ser teimosos e continuar a perseguir as ilusões. Infelizmente, a maioria de nós faz exatamente isso.

Mas um dia aprendemos. E com essa aceitação temos nosso caminho à frente. É quando deixamos de lado a infância e abrimos os olhos para a vida adulta.


Autor: Frater Inanis