O Desafio das Ordens no Séc. XXI

Convenhamos que não é nada fácil ser uma ordem ocultista em pleno séc. XXI. E olha que não estou falando nem do avanço dos setores mais belicosos de certas igrejas neopentecostais ou da secularização cada vez maior de nossa sociedade. Não, não… Estou falando mesmo de um mundo que mudou um tanto quanto desde a Idade Média. Ok, eu sei que peguei pesado com a Idade Média. Mas, considerem comigo…

Lá pelos idos medievais, quem queria obter algum tipo de conhecimento esotérico tinha lá os seus problemas. Primeiro era preciso encontrar alguém que soubesse algo no ramo, o que já era complicado. Pior ainda era encontrar alguém que não apenas soubesse como estivesse disposto a ensinar. E, claro, no processo não ir parar em alguma fogueira (sim, eu sei). Para piorar, você muito provavelmente seria analfabeto e teria uma certa dificuldade em aprender algo que lhe fosse ensinado. E tudo isso nos 30 anos que eram a sua expectativa de vida.

Legal, não?

Mas aí apareceu aquele rapaz, o Gutenberg, com essa tal de imprensa e o povo começou — aos poucos, é claro — a colocar o que sabia nos livros. Mas, mesmo assim, não era lá muita gente que escrevia o que sabia. E encontrar um livro desses continuava a ser um trabalho quase tão desgraçado quanto encontrar um professor dessas coisas tinha sido. Mas com tempo isso foi melhorando e chegou a um ponto, lá pelo final do séc. XIX, em que existiam livros sobre quase tudo quanto é ramo de ocultismo, misticismo, religião ou outro aspecto dessa área. E, vão por mim, nunca foram best sellers mas a turma comprava e lia bastante.

Chegou um momento em que passou a ser razoavelmente fácil adquirir esse conhecimento que, alguns séculos antes, você teria de dar um rim (por vezes, literalmente) para conseguir. Mas não parou por aí. Claro que não parou por aí. Já no séc. XX veio aquela invenção que fez Toth e Hermes darem um sorriso de orelha a orelha: a Internet. Bingo! Todo o conhecimento humano estava ali, para quem quisesse passar pelas camadas de gatinhos, memes de Nutella e pornografia (nada contra) e encontrar.

Ou seja, chegamos no séc. XXI. Ninguém precisa mais ficar procurando uma figura obscura no meio da floresta (sim, eu também sei) ou catando livros em uma biblioteca empoleirada. Uma boa busca no seu celular e você já consegue o conhecimento que as gerações passadas levavam uma vida para ter.

Mas, e agora? Sabe, normalmente as pessoas se juntavam a Ordens, Irmandades, Sociedades e outros grupos do tipo porque era mais fácil assim arrumar esse conhecimento. Então, hoje em dia, para que alguém vai resolver se iniciar em uma Ordem? Na verdade, creio que essa é a grande pergunta que todas as lideranças dessas organizações deveriam estar se fazendo:

Para quê serve uma Ordem em pleno séc. XXI?

Certamente não é para ter acesso a esse conhecimento intelectual que, como vimos, está ao alcance dos dedinhos de qualquer um. Porém elas continuam aí. E as pessoas ainda as procuram. Mas, por que as procuram?

Muitas vezes o que essas pessoas querem é um refúgio. Uma forma de olharem para si mesmos com uma certa admiração que não encontram em seu dia a dia. “Agora eu sou um iniciado da Ordem Tal e Qual”, pensa Joãozinho. “Agora eu sou especial!” Ok. É uma forma de pensar. Mas, pessoalmente, não me parece das melhores. Será que a pessoa realmente precisa disso para olhar para si e vel alguém especial. Se for, seguramente não é um sentimento que vá durar muito. Outra esperança que as pessoas trazem ao se inciar em organizações ocultistas é a de que ali vão ter um conhecimento que não está nos livros ou na Internet. Os famosos segredos que toda Ordem alega possuir. O problema é que essas pessoas acreditam que um segredo é um papel com alguma fórmula mágica ou algo que vai ser contado a elas em algum momento. Sinto muito, Joãozinho, não funciona assim. Esses segredos existem sim, mas são um resultado de algo não um algo pronto.

Sendo muito sincero, esse desafio que eu vejo as organizações iniciáticas passando não é nada diferente do desafio que os professores também passam: o que ensinar quando o conhecimento está ao alcance de quem o quiser? Mas talvez a resposta não seja “o que”, mas seja encontrada mais para o lado do “como”.

O que não tem como uma pessoa aprender em uma leitura ou em um vídeo é a experiência. Aquele conhecimento que só quem já passou por aquilo vai ter. E não é apenas um conhecimento intelectual mas uma capacidade de separar a informação séria da pura bobagem (que, convenhamos, é sempre o mais fácil de encontrar na Internet). Ensinar o como buscar a informação pertinente e como aprender a reconhecer a válida da porcariada talvez seja a nova forma de transmissão de conhecimento em um mundo onde somos soterrados de informação.

Mas isso também não pode ser feito em mesa de bar. É preciso um ambiente seguro e confortável (seja lá o que você considere “seguro e confortável”) para que a pessoa saiba que essa experiência que ela esta recebendo também seja válida e não mais alguma viagem alucinante de um doido. O contato com outras pessoas que têm uma visão de mundo semelhante, que trazem em seu íntimo objetivos parecidos e falam um mesmo idioma dá a quem está ali uma condição melhor de transmissão e recepção dessas experiências de vida. Isso porque a pessoa vai estar em um ambiente de confiança.

O que nos leva a um outro ponto. Em um mundo onde mestres, líderes espirituais e gurus são figuras comuns, é uma realidade infeliz que muitos mestres, líderes espirituais e gurus não passam de uns bons trambiqueiros. Gente que está querendo apenas se aproveitar das pessoas que os procuram em graus que vão da simples exaltação do ego até abusos sexuais. Aproximar-se de um grupo que, por sua filosofia ou práticas (ou simples regulamentos mesmo) quebre um pouco essa coisa dos líderes carismáticos que são seguidos sem a menor dúvida ou contestação é algo bastante recomendável.

Assim, eu diria que existe, sim, espaço para Ordens e quetais no séc. XXI. Mas com um pensamento diferente do que se tinha há 100 anos atrás para que possam não apenas continuar existindo mas para que sejam relevantes. Um objetivo não de ser um lugar onde se joga conhecimento no colo mas onde se compartilhe fraternidade, segurança e experiência. De serem espaços onde se possa viver uma ideia e trocar essa vivência com outros que sejam vistos como iguais. Um espaço não de intelectualidade (ainda que esta tenha ali o seu espaço) mas de espiritualidade.

Como nunca foram antes.


Autor: Frater Hrw