Grande Obra: Luzes & Sombras

Tudo é Duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias–verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados.
– O Caibalion

O termo Grande Obra ou Magna Opus é retirado da Alquimia medieval e significa  o  trabalho  mais excepcional, harmonioso e perfeito produzido por um artista. Na Alquimia, significa a obra de redenção do mundo. O mundo, tal como criado pelo Demiurgo, é uma obra imperfeita que deve ser aperfeiçoada pelo homem. No Hermetismo, significa uma expansão da consciência que permita ao homem se unir a deus, união de microcosmo com o macrocosmo. Em Thelema, o termo refere– se à união com o Sagrado Anjo Guardião, representante da centelha divina no mundo da dualidade.
Onde quer que se encontre o termo “Grande Obra”, a sua simbologia remete a união, aperfeiçoamento, elevação. Em termos gerais, esta obra se refere ao aperfeiçoamento do homem, à solução de um conflito e à conquista de um equilíbrio que permita ao indivíduo, consequentemente ao mundo, atingir um estado superior de existência em que todo o seu potencial encontra–se realizado.

O homem nasce potencialmente uma centelha divina, porém, em seu estado natural, está submetido às forças magnéticas do mundo e precariamente cumpre as suas funções de existência. Através do processo da Grande Obra, esse mesmo homem nascido escravo se liberta por seu próprio esforço. Desenvolve suas potencialidades e atinge não só o refinamento e liberação das funções que julga possuir, como desenvolve aqueles potenciais que sequer imagina serem possíveis. Equivale a um despertar pleno da natureza humana que eleva o homem ao status de um deus.

O homem integralmente desenvolvido se destaca como um super–homem em comparação com o estado obtuso em que vive a grande massa humana. Em verdade, não é um super homem, mas preenche o estado real de um homem que integralmente desenvolveu o seu próprio potencial e adquire o direito inalienável de ser considerado um ser humano.

O medo da ausência de luz e da morte nos fez associar o mal com a escuridão da noite, a sombra, reforçando nosso apego à luz, considerada como bem.

Talvez devido ao fato de que a Grande Obra é sempre relacionada a um estado divino, estando o mundo sob a influência de doutrinas que consideram deus privado do mal e da sombra, a ínfima porção da humanidade que realmente se esforça para alcançar a Grande Obra persegue a luz como o bem supremo a ser alcançado.

De fato, a Magna Opus leva a um estado que pode ser considerado como iluminação, mas o estado de iluminação inclui em sua natureza a conjunção de luz e sombra. Somente podemos ver a luz em contraste com a sombra. Somente podemos compreender o bem em contraste com o mal. Estes opostos supremos estão sempre presentes em nossa trajetória e em se falando de integralidade do ser humano não poderia ser diferente. Iluminação, portanto, implica na integração dos opostos.

A consciência superior proporcionada pela Grande Obra implica num estado livre onde o indivíduo se eleva acima da luz e da sombra, acima do bem e do mal, alcançando a possibilidade de avaliar claramente e agir conscientemente.

Sob a égide de doutrinas unilaterais onde a luz é compreendida como grandeza absoluta, vivemos escravizados e angustiados sob o despotismo de valores que simbolizam essa luz, negando tudo aquilo que se afaste dela ou que de alguma forma a contradiga. Negamos os aspectos sombrios de nossa existência individual e coletiva e, desta forma, comprometemos a nossa própria totalidade e realidade. Isto gera um conflito entre a vontade de alcançar a Grande Obra e o estado necessário para alcança–la. A vontade inconscientemente se divide, é enfraquecida pela inquietação interna gerada pela negação de si mesmo.

Negar a existência da sombra não corresponde a erradica–la. Ao contrário, ela é potencializada na medida em que negamos o seu lugar em nossa consciência, empurrando–a para espaços escusos de nossa constituição. Ficamos à mercê da influência do invisível. Por outro lado, o trabalho exclusivo com a luz hipertrofia apenas um polo da nossa manifestação humana, deixando o outro polo hipotrofiado. Ou seja, induz a uma deformidade que em nada se assemelha ao objetivo da Grande Obra.

Integrar os aspectos sombrios em nossa consciência não implica necessariamente em realiza–los, mas em poder reconhecê–los, avalia–los e adquirir a possibilidade de transmuta–los. Como disse anteriormente o equilíbrio entre os opostos e a elevação do homem acima da dicotomia gerada pelos contrários é o que torna o indivíduo um discípulo da Grande Obra.

Aquilo que consideramos como mal e sombra é em realidade virtude em desequilíbrio. Aspectos primitivos da consciência que por terem sido negados não tiveram oportunidade de serem submetidos ao refinamento. Força bruta, matéria prima da Magna Opus, energia incalculável à nossa disposição. Energia adicional a ser empregada para os nossos propósitos, sejam eles em direção à Grande Obra ou mesmo apenas em direção a realização de nossos objetivos materiais.

Um homem que utiliza suas reservas de energia conscientemente em direção à concretização de seus sonhos materiais pode alcançar maior evolução do que o estudante que persegue a luz e nega a sombra em seus esforços para alcançar o grande fito. Aliada à questão da vontade deve ser empregado um método, o simples desejo e boa intenção não nos leva a lugar algum. O método da obra magna toma como base indispensável a união dos contrários, luz e sombra, bem e mal. Desta conjunção renascemos, nasce a criança divina que tanto almejamos.

A totalidade que alcançamos na consecução do percurso espiritual remete o homem à imagem de deuses. Estudando a mitologia referente a cada deus podemos observar que eles não são desprovidos de aspectos humanos, luz e sombra convivem dentro deles. A grandiosidade dos deuses está em serem integralmente humanos, detentores do bem e do mal. Nesse sentido podemos afirmar que não existe deus senão o homem. Mas aqui o termo homem implica no desenvolvimento de potencialidades que não são normalmente acessíveis à classe humana. O desenvolvimento das faculdades inerentes ao homem exige o esforço hercúleo do autoconhecimento. Implica numa auto–observação contínua e detalhada de cada aspecto de nossa natureza, implica no destemor face à escuridão que reside em cada um de nós.

O integralmente humano é aquele que suporta perfeitamente dentro de si a tensão entre luzes e sombras. Visitando o interior da terra, ou seja, nosso próprio inferno pessoal, nos capacitamos a integrar e retificar os excessos, atitude implícita ao processo de transmutação alquímica. Nossa vida passa a ser experimentada no âmbito da plenitude de potenciais desenvolvidos e elevados à condição de funções que se expressam com perícia refinada.

Ocorreu algo na história do desenvolvimento do homem, e isto tanto no Oriente quanto no Ocidente, que nos induziu a uma fuga ensandecida da escuridão. Induziu–nos à deformidade a partir do estímulo de nossos aspectos luminosos e rejeição de nossos aspectos obscuros.

A Grande Obra se compreendida como uma busca pela luz absoluta torna–se unilateral e, portanto, indutora de deformidade, um engodo, um fator que escraviza milhares ao redor do mundo.

No meu entender a Magna Opus só se torna libertadora e só é passível de ser alcançada na medida em que integramos o mais que humano em nós. E esse mais que humano inclui não só um entendimento profundo do processo como também o pleno potencial de ser escuro e claro, conforme as exigências individuais e coletivas.

Desenvolver a perícia dos atos de viver e morrer é o grande sentido da Grande Obra. Nisto reside toda a sacralidade possível.


Autora: Soror Babalon