Deus Está Morto

“Deus está morto!”, bradou Nietzsche. É claro que, logo depois, Deus declarou que Nietzsche é quem estava morto. E pelo visto a palavra final foi do velhinho de barbas brancas. Mas a afirmação do autor de “Assim Falou Zaratustra” ainda provoca um arrepio na espinha de muita gente. E não estou me referindo às beatas da paróquia ali da esquina ou ao medo de certos autoproclamados bispos de perderem a clientela. Há uma espécie de horror nato na humanidade que esta frase parece evocar. Garantir a morte de Deus, este mesmo Deus que — bem ou mal — tem batido ponto nos últimos dois mil anos (ou mais, se considerarmos o currículo anterior), soa por demais decisivo e até mesmo antinatural.

Bolas, mas por quê?

Acredito que a melhor resposta a esta pergunta tenha sido enunciada por Dostoiévski. Disse o russo que, se Deus não existe tudo é permitido, e acaba que ninguém precisa de escrúpulos, moral, sentimentos… Pois está enraizada a multimilenar idéia do eixo bem–mal servindo de base moral para a humanidade. O que faz com que o ser humano se comporte é o monitoramento pavloviano divino. Você é um bom menino? Então ganha biscoito. Não é? Então fica de castigo. Só que o biscoito era um visto no passaporte para o Céu e o castigo era um bate papo muito longo e entediante com o Capeta (sem direito a cerveja). O grande problema não é que sem Deus a alma humana fica sem berço. O problema é que sem Deus o ser Humano passa a ser seu próprio eixo.

Certo, certo… Mas, e daí?

Ocorre que religiões como o Cristianismo (eu disse religiões, não empreendimentos comerciais), Judaísmo, Islamismo e outras possuem esta dicotomia de Bem verus Mal, tudo devidamente herdado de religiões anteriores como o Mitraísmo e o Zoroastrismo. Este tipo de dicotomia construiu maravilhosamente bem as bases morais de nossa sociedade. Ora, fale–se o que quiser dos Dez Mandamentos mas, retirando-se a parte da idolatria que estava lá para garantir o troço, é uma bela regra de conduta, tão boa quanto qualquer livro de boas maneiras hoje. Consideremos que estas religiões lidavam com sociedades em que não vomitar na mesa já era considerado muito chique. Ou seja, uma humanidade bárbara que se deixada à solta provavelmente continuaria espetando uns aos outros só por passatempo. A humanidade em si não é diferente do indivíduo. Uma criança também precisa de normas severas para poder conviver com o mundo, qualquer um que tenha filhos sabe disto. Você não perde tempo explicando a uma criança de quatro anos que aquela coisa colorida e legal é um autêntico vaso da dinastia Ming que custa uma fortuna e que o Joãozinho (sempre ele, pobre Joãozinho) não pode usá-lo como trave de futebol pois isto quase certamente irá quebrar uma obra de arte preciosíssima e irrecuperável. Ufa! Obviamente o Joãozinho não entenderá patavinas disto. E já era um vaso. Você simplesmente diz “larga o vaso” e pronto. Depois que a criança está mais crescida você passa a explicar os porquês (ela mesma cobrará isto). Finalmente um dia você descobre que não precisa mais explicar, a criança já entende que certas coisa são brinquedo e outras não. Ou seja, você vai impondo uma severidade cada vez menos à medida que a maturidade vai chegando.

É a mesma coisa com a humanidade como um todo. Já fomos crianças que quebravam não apenas nossos brinquedos como as cabeças, digo, os brinquedos dos outros. Neste contexto, o rígido código moral de uma religião osiriana se faz necessário para impedir que a humanidade, ainda criança faça, besteira demais. Se o Æon de Ísis caracterizou–se pela descoberta da vida, o de Osíris foi pela descoberta da moral. Bem, mal, certo, errado… Eram conceitos que o Ser Humano precisava compreender mas que ainda não estava maduro para tanto. Bem, se a explicação não vai ser entendida que se dane a explicação. Não pode e pronto! E se desobedecer… Ai, ai, ai! Para isto coloca-se um eixo comportamental que deve ser seguido sem muitas discussões. Afinal de contas quando não se sabe muito bem para onde ir é melhor ficar na estrada que nos foi indicada mesmo. E para isto as religiões osirianas são bem construídas.

Só que o pessoal começou a anunciar que não tem Deus coisa nenhuma, que isso é bobagem… A grande maioria das pessoas que diz isto não percebe as implicações do que está dizendo. Se o eixo Deus–Diabo era o conduto comportamental humano, simplesmente retirar–se este eixo acaba com o direcionamento moral de toda a humanidade. E isto é complicado… Pois nem todo mundo está pronto para isto. Afinal quando você perde o seu Guia Rex da Moral e dos Bons Costumes vai ser obrigado a achar sozinho o caminho para casa. E tome de pegar ônibus errado e tentar entrar em rua de contra mão.

Sem a presença do Deus para julgar os Homens nós mesmos somos obrigados a conduzir este julgamento. Ou seja, se Deus está morto o Diabo também está. E isto significa que não podemos mais jogar nossa mesquinhas esperanças em uma entidade superior que parece não ter mais nada a fazer a não ser ficar tomando conta da gente, e não poderemos mais jogar nossas culpas no malvadão que quer nossas almas para fazer suflê. E que todos nos viremos com o tal do “livre arbítrio”. Era esta a idéia de Nietzsche ao declarar Deus morto (infelizmente o dito cujo parece ter levado para o lado pessoal): que a humanidade já está na hora de assumir a responsabilidade por seus próprios atos e destino.

Thelema procura lidar com esta não necessidade de um “censor” externo. A partir do momento em que se reconhece que a única lei possível é a realização da Vontade perde-se a necessidade da filosofia crime/castigo osiriana. Pois se os seus atos são simplesmente conseqüências da sua Vontade então você sabe que é responsável por cada um deles e suas conseqüências. Não há mais culpa a ser redimida mas sim falhas a serem corrigidas. Não há mais castigo pelo pecado mas o aprendizado do erro. Não há mais vergonha dos atos mas a aceitação plena dos mesmos.

A mentalidade osiriana treme ao ouvir que “Deus está morto” por medo, pois não está ainda pronta para assumir as responsabilidades por seus atos. A mentalidade do Æon de Hórus é diferente. Ela assume seus atos e lembra–se daquela citação da Missa Gnóstica, “eu sou só, não existe Deus onde estou”. E dá um sorriso satisfeito.


Autor: Frater H. Menthu