Crowley Está Morto!

Sim,  é isso mesmo. Crowley está morto e enterrado (eu sei, eu sei). Há mais de setenta anos, aliás, para alegria de muita gente. Então, eu pergunto, por que é que ainda sentimos o peso de sua mão morta em nossos ombros? Por que diabos temos de nos ater que nem um bando de cegos a seus escritos?

Sinto que causei um certo desconforto na platéia… Vejo uns e outros com cara de quem comeu angu velho… Afinal de contas, argumenta aquela simpática velhinha da terceira fila, esse menino não é da tal da O.T.O., que propaga a tal de Télema que o Crowley propôs? Sim, minha doce senhora, isto tudo está correto. Mas então a O.T.O. deixou de ser uma ordem Thelêmica, perspicazmente inquire o garotão de cabelo azul no fundo do salão? Muito pelo contrário, respondo eu, a Ordem é cada vez mais e mais Thelêmica! Mas agora que está armada a confusão, deixem-me explicar algumas pequenas coisas.

Antes de mais nada, devemos nos lembrar bem do que é Thelema: uma filosofia de vida que busca potencializar o indivíduo, permitir a cada um a plena realização de sua vida, uma religião que propõe a ligação direta entre o indivíduo e sua própria concepção de divino. Todo o resto gira em torno disto, com a miríade de variações que apenas uma filosofia/religão não dogmática poderia acomodar sem resultar em sopapos e bofetões. Bem… De vez em quando rolam uns sopapos e bofetões. Mas isto não vem ao caso agora. O que importa neste momento é que tenhamos em mente que o Crowley criou foi uma série de métodos, práticas e formas de se alcançar o fim proposto por uma idéia que, acredito eu, ele mesmo não tinha muita noção do que era.

Pronto… Mais comoções no público…

Sim, meu senhor. Sim, minha senhora. Eu estou afirmando aqui que o senhor Aleister Crowley, também conhecido como, Mestre Therion, Carecão, ou como queira chamá-lo, não tinha plena noção do que deveria ser a filosofia Thelêmica. Afinal de contas, pensem bem… Será que Mendel tinha plena noção do que era a genética? Ou que Einstein tinha plena noção de todas as possibilidades da Teoria da Relatividade? É claro que não. Por mais geniais que estas pessoas fossem é óbvio que não poderiam pegar aquela pequena semente que tinham em mãos e descrever toda a árvore que ela viria a se tornar. Da mesma forma, Crowley lançou a semente do pensamento libertador de Thelema mas não lhe seria possível vislumbrar o crescimento desta semente no futuro; não lhe seria possível prever os rumos que a sociedade iria tomar e como Thelema poderia incluir-se nesta sociedade.

Pois o mundo de hoje é muito, mas muito diferente daquele que Crowley conheceu. Não apenas a tecnologia atingiu conquistas inimagináves por alguém que tenha vivido na primeira metade do Séc. XX ou antes (deixemos Roger Bacon de lado) como todo o modo de ser das pessoas alterou-se radicalmente. Nossa forma de agir ou mesmo de pensar, nossa forma de encarar o mundo e com ele nos relacionarmos muito pouco tem a ver com aquela que Crowley conheceu. Veja o próprio comportamento deste que foi chamado de “o pior homem do mundo”. Ele se drogava, transava alucinadamente com homens e mulheres, pintava quadros ruins e escrevia coisas estranhas, gostava desta história de magia, tinha um monte de seguidores… Ora bolas! Será que ele era um astro de alguma banda de rock e eu não sabia? (Sim, minha senhora, eu já vi a contra-capa de Sgt. Pepper’s…) Ou seja, nenhuma das atitudes tão escandalosas e “demoníacas” de Crowley receberia tanta atenção assim hoje em dia. Ele seria apenas mais um. Entretanto, esta foi a forma que ele encontrou, há um século anos, mais ou menos, para mostrar a uma sociedade ainda sob as asas do pensamento vitoriano, que era possível a uma pessoa comportar-se de uma forma não convencional, segundo os seus próprios desígnios, desde que, é claro, mantivesse a responsabilidade por seus atos. Funcionou, naquele tempo e naquele lugar. Funcionou, com aquela estrutura social e psicológica.

Porém não estamos mais naquele tempo e lugar. Não temos mais a mesma estrutura social ou psicológica. Nossa realidade é outra mas algumas pessoas continuam aferrando-se ao pensamento de Crowley como se fosse o único caminho possível. Estas pessoas convenceram-se de que a melhor (quiçá única) forma de serem “verdadeiros Thelemitas” é seguindo passo a passo o que ele escreveu, disse ou fez. Simplesmente emulam a forma de agir e pensar de outra pessoa. Isto é o que mais longe está de ser um Thelemitas! E é por isto que eu digo e repito: Crowley está morto e ainda bem que ele está morto! Não digo que seus escritos devam ser queimados em praça pública, que seu nome seja relegado ao limbo ou outra bobagem desta. Mas temos de manter em mente que, por mais que Newton tenha criado a moderna Física, que ainda estudemos seus conceitos e utilizemos suas fórmulas, não nos atemos só ao que Newton criou. Um físico busca novas idéias, novas teorias, novas formas de encarar a física — mesmo que estas novas formas contestem a própria física Newtoniana! A isto se chama evolução.

O mesmo se dá em Thelema. A obra de Crowley foi seu marco inicial, e seus rituais e escritos formam a base de estudo da filosofia e do sistema mágico. Isto é óbvio e não deve jamais ser descartado. O erro se dá, porém quando o estudante passa a ver a compreensão da obra crowleyana como o objetivo de seus estudos e não como um ponto de partida. Desde então o mundo já deu mais voltas do que discurso de político e uma das tarefas a que devemos dedicar nossos estudos é justamente a adaptação de Thelema a esta nova realidade, ao aqui e agora. Não nos prendermos apenas aos rituais que nos foram legados por Crowley as criarmos outros. Não nos atermos apenas à leitura obsessiva e discussão interminável sobre os escritos dele; gerarmos pensamentos novos, fomentarmos novas discussões.

E é por isto que eu, mais uma vez digo: Crowley está morto. Mas Thelema está viva e é nossa obrigação, enquanto Thelemitas, mantê-la viva e bem, de fazê-la evoluir, adaptar-se como é de sua própria natureza. Pois o Livro da Lei é uma obra viva que evolui e muta-se com o tempo, não um pedaço morto e enterrado de papel.


Autor: Menthu

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