Cristianismo: O Ocaso do Mundo Pagão

Não podemos fazer um estudo da crença cristã sem nos depararmos com o mundo pagão e as profundas transformações sócio-econômicas que acabaram por abalar todo o mundo antigo, favorecendo a instalação de uma nova ideologia religiosa: o cristianismo.

O advento do cristianismo é um marco histórico que assinala o fim do velho mundo, implantando uma nova concepção de Deus e uma nova relação dos homens com as coisas naturais e sobrenaturais, deixando para trás o politeísmo pagão que por tantos séculos havia aquecido o coração dos fiéis.

Não é nosso objetivo fazer um estudo profundo das crenças religiosas da antiguidade. Pretendemos apenas tecer considerações que sirvam como introdução ao assunto, buscando, com isto, despertar no estudante a curiosidade sobre essa fase de transição na religiosidade humana que tanto influenciou o ocultismo em geral e que deixou sutis, mas profundas, marcas em nossos perfis moral e social atuais.

Concentraremos nossa pesquisa sobre o império romano e sua religião oficial, constituída por um amálgama dos cultos grego e romano: o politeísmo greco-romano.

Julgada através do prisma judaico-cristão, a religião greco-romana parece ser envolta em uma névoa de pessimismo: a existência humana é, por definição, efêmera e sobrecarregada de preocupações, dispondo o homem apenas das limitações inerentes a sua condição e que lhe são outorgadas pelo seu destino, tendo como dever precípuo a honra às divindades.

Estas são algumas das conotações religiosas incorporadas pelo paganismo, as quais consideravam a existência como precária e finita e ao contrário do cristianismo, não encontravam esperanças na vida ultraterrena, visto que morrer significava o advento de uma existência humilhante nas trevas subterrâneas de Hades, povoado de sombras e desprovido de força e memória.

A consciência de sua própria fragilidade, ao contrário do que possa parecer, não fazia do povo pagão seres lúgubres e desgostosos de sua própria existência. Sua maior virtude e consequente sabedoria estava em redescobrir a alegria de viver através, principalmente, do valor sacramental da experiência erótica e da função religiosa do júbilo coletivo com as festas, procissões, danças, cantos, banquetes etc…

A felicidade não era prêmio concedido àqueles de “boa conduta moral” na subsistência após a morte, portanto, viver com intensa alegria cada momento era uma regra assimilada pela população em geral. Esta alegria, longe de ser profana, revelava uma grande satisfação pelo fato de existir e de participar da espontaneidade da vida e da majestade do mundo.

O politeísmo greco-romano era constituído de um vasto número de deuses que configuravam os diversos elementos da natureza e ofereciam proteção nas várias situações da vida, dando origem a um magnífico círculo de figuras sobre-humanas, em cujo mito o homem antigo buscava a sua própria identidade. Esses deuses não objetivavam, prioritariamente, julgamentos morais superiores. A sua função estava muito mais vinculada à proteção da existência do que a parâmetros éticos. A ligação, portanto, entre a moral individual e a religiosidade não existia, podendo os adeptos exercer seu livre arbítrio para reger suas próprias vidas. Como ilustração, temos os mistérios gregos que, longe de se preocuparem com a tão atualmente badalada “evolução espiritual”, procuravam, através de seus ritos, elevar seus iniciados a situações privilegiadas perante os deuses, tornando-os capazes, deste modo, de obter favores junto às divindades que normalmente eram vetados ao homem comum.

Politicamente a religião pagã estava tão intimamente ligada ao estado, que se acreditava estar a subsistência do império romano condicionada à proteção exercida por seu exército sagrado; por isto, todo e qualquer outro idealismo religioso que, por ventura, viesse a existir tinha que se submeter à religião nacional.

No paganismo, a figura do imperador ocupava posição de grande destaque, visto que, além de chefe de estado, era considerado pontífice máximo desta religião, acumulando às funções de governante as obrigações ritualísticas. Este importante pormenor religioso tem como origem raízes muito mais profundas do que a princípio possam parecer. Se nos reportarmos a sociedades bem anteriores, verificaremos a existência de personagens considerados feiticeiros e que, através de seus poderes mágicos, protegiam toda a comunidade, adquirindo, desta forma, uma grande influência política e, não raras vezes assumindo a condição de chefes de estado, passando a, então receber todo tipo de homenagens. Do mesmo modo, o imperador romano se vê homenageado com o título de Augustus, que significa uma consagração, uma legitimidade e uma viabilidade sagradas. Esta exaltação à figura do imperador chega a tal ponto que progressivamente ele se tornará o representante oficial dos deuses e, mais tarde, passará a ser considerado o próprio Deus. Sua palavra é a mensagem direta das divindades e, como tal, unanimemente respeitada.

Este fato talvez cause estranheza às “abstraídas” e tão “evoluídas” mentes de nosso século XX, mas se observarmos com atenção a sociedade que nos cerca, poderemos verificar, sem dificuldades, a existência de religiões em nosso meio que, tendo suas raízes ainda fincadas na velha Roma, buscam submeter seus adeptos à superior vontade de um pontífice máximo que teria direta inspiração divina. Esses pontífices insistem em se comportar como aqueles feiticeiros primitivos, distribuindo bênçãos sobre a humanidade com o magnânimo objetivo de protegê-la e exercendo tal fascínio sobre os incautos que acabam por arrebanhar milhares de fiéis, obtendo, desta forma, um invejável poder político e econômico. Como podemos observar, muitos de nós ainda vivem conforme os ditames do tão “mal afamado” mundo pagão.

Após esta breve exposição sobre a religião pagã, iremos dirigir nossa atenção para o principal objetivo de nosso estudo que é a decadência do mundo antigo. Os principais fatores apontados como deliberativos desta degeneração religiosa foram a enorme miscelânea de deuses de diversas culturas, que tomou conta do império romano quando de sua expansão, além da decadência sócio-econômica iniciada no século II e.v.

No decorrer de dois séculos, meados do séc. III à segunda metade do séc. I p.e.v., o estado romano que até então, abrangia unicamente a península itálica, tornou-se a primeira potência do mundo antigo. Englobou progressivamente a totalidade dos países mediterrâneos, limitando-se a leste pelo Eufrates, ao norte pelo Danúbio e Reno, a oeste pelas margens do Atlântico, ao sul pelo deserto do Saara e as cataratas do Nilo. Todos os centros culturais da antiguidade caíram sob o domínio de Roma, com exceção da Índia, da Partia e da China.

A conquista romana era trágica para os povos submetidos: levava à escravidão milhares de pessoas e destruía as antigas relações sociais, trazendo, como consequência, a debilidade das forças produtivas. A introdução do direito romano, bem como os pesados impostos, acabavam por alterar a vida das pessoas, e tais modificações refletiam-se com frequência sobre a religiosidade do povo. Como consequência, os cultos locais perdiam, progressivamente, seus fiéis e as velhas cerimônias, cada vez menos, atraíam multidões que, surpresas, presenciavam a impotência de seus deuses diante do domínio estrangeiro. A superstição de que a invencibilidade de Roma estava vinculada a seus deuses fazia com que a mesma impusesse seus cultos aos povos subjugados. Esse massacre religioso surtiu grande efeito em relação aos povos semi-bárbaros (bretões, hispânicos, gauleses, etc.), que não possuíam ainda uma cultura solidamente edificada. Em relação às civilizações orientais, culturalmente seculares, esta mutilação religiosa surtiu menos efeito e, embora tenham sofrido algum grau de influência, acabaram também por influenciar a cultura dominante de forma definitiva; exemplo disto é o Egito, cujo culto a Ísis findou por se tornar muito popular entre os romanos.

As divindades das regiões conquistadas tinham, por imposição, que adotar nomes romanos e a forma antropomórfica clássica dos mesmos; como exemplo temos os deuses Gálicos Taran e Tentates, que deste modo, passam a se chamar respectivamente, Júpiter e Mercúrio.

Outro hábito que se tornou freqüente foi o de formar parelhas entre os deuses romanos e os não romanizados, criando laços familiares que induziam a união dos povos, facilitando, portanto, o seu domínio.

Roma conhecia bem o poder político que pode ser obtido através da manipulação da fé humana. Entenda-se aqui por fé humana aquela força cega que leva a turba à adoração irracional de qualquer poder que retire de seus ombros a responsabilidade do porvir e erradique de seus corações o medo da morte, alimentando seus egos com a doce esperança da sobrevivência no além. Mas, como todo manipulador acaba de alguma forma sendo também manipulado, o império romano finda por não sair incólume desta batalha cultural e religiosa, sofrendo marcante influência de povos como os persas, egípcios e semitas, entre outros.

A maior de todas estas influências foi sem dúvida aquela exercida pelo povo egípcio e sua casta sacerdotal. Isto provavelmente tenha se dado devido à antiga veneração grega a sabedoria egípcia na qual, segundo se acreditava, culminavam a teologia, a astronomia, a observação da natureza e a medicina. Os sacerdotes egípcios constituíam uma classe social que havia dominado os faraós e seu povo, deixando para a posteridade, além de magníficos monumentos, o grande fascínio do poder alcançado através da magia e do misticismo. Nenhum outro povo havia vivido tão intensamente suas doutrinas e prescrições sagradas quanto o povo egípcio. As construções dos templos, as festas, os sacrifícios e o enterro dos mortos eram estaque na vida desta população para a qual, a agricultura e o comércio ocupavam um lugar secundário a estes eventos.

ÍSIS, a terra; e OSÍRIS, a corrente fertilizadora do Nilo; eram os símbolos máximos da vida e, desta forma, eram apresentados aos demais povos. Inicialmente Ísis se apossou do coração dos helênicos, onde era identificada com Deméter; e Osíris, seu conjugue, com Dionísio. Logo após, se apossou dos corações romanos onde podia ser encontrada ao lado de Osíris, Serapis, Anúbis ou Horus, seu filho.

Os rituais em homenagem a Ísis podiam ser realizados em templos fechados ou em festas e procissões públicas, dentre as quais, a mais famosa era aquela realizada a 5 de março, a qual comemorava o fim do inverno e tinha como objetivo invocar a proteção da deusa para as navegações. O cortejo ia da cidade de Corinto até à beira-mar e seguia com ares carnavalescos pelas ruas, onde mulheres coroadas e vestidas de branco espalhavam flores e perfumes, gesticulando com espelhos e pentes. Ao chegar ao mar, pequenos barcos eram preparados com perfumes e outros objetos narcisistas que enalteciam a beleza da deusa, sendo logo após lançados às águas.

Aos poucos, Roma perdia a velha repugnância pelos cultos estrangeiros e se deixava cada vez mais fascinar pelos cultos orientais. A religião clássica era adulterada e fragilizada pela miscelânea cultural.

Surgia a época da completa teocracia que nascia do afã das religiões politeístas de aproximar-se umas das outras, buscando intercessões entre seus deuses na tentativa de torná-los entidades únicas. Não havia nisto uma aproximação do monoteísmo, visto que, uma enorme variedade de deuses ainda era reverenciada pela população.

As consequências desta teocracia são drásticas para os velhos deuses, que se veem despojados de suas características nacionais e perdem a conexão direta com a vida estatal romana, passando a ser encarados pela plebe como potências demoníacas das quais só se podia aproximar através de práticas mágicas. Passa a existir um número infinito de ritos de adoração e embora não haja divergência entre eles, estes testemunham o começo da dissolução do paganismo, tornando o momento propício para o surgimento do cristianismo.

Concomitantemente, na área sócio-econômica, Roma, que havia vivido seu apogeu, inicia agora seu declínio. O trabalho físico era considerado indigno do homem livre, sendo a agricultura e as profissões intelectuais as únicas exceções a esta regra. Por sua vez, a cultura do solo encontrava-se bastante prejudicada, pois devido às guerras os cultivadores eram afastados de suas terras para engrossarem as fileiras dos exércitos, sendo a sua mão-de-obra substituída pela dos escravos que de forma alguma se igualava em termos produtivos à do trabalhador livre. Por outro lado, embora menos produtiva, a escravatura assegurava aos donos de terras a cooperação absoluta de seus trabalhadores, sendo os gastos para os manter, bem inferiores ao dos lavradores livres. É certo que a exploração desumana, a que eram submetidos os escravos, não permitia a sua longevidade, mas o seu custo era tão pequeno que podiam ser facilmente substituídos por outros mais jovens.

A população de fâmulos não era um grupo homogêneo. Entre eles havia os que trabalhavam na agricultura, na indústria e aqueles mais afortunados eram recrutados para trabalhos domésticos, neste último caso encontrávamos médicos, professores, empregados de chancelaria, etc.

A classe dos domésticos era bem tratada e muitos deles chegavam a ter seu próprio comércio ou indústria artesanal. Sua influência ideológica era relevante e muitos deles eram sírios ou egípcios. O aparelho governamental romano selecionava muitos de seus funcionários desta classe social e em consequência disto, sua importância política crescia a cada dia.

Como os escravos não eram um grupo homogêneo, divergindo em opiniões e interesses, tornavam a sua luta pela liberdade um trabalho desorganizado e desastroso. Diante das revoltas improdutivas, passaram a acreditar que apenas um milagre poderia salvá-los, e o cristianismo, com seu homem-deus sofredor, crucificado e ressuscitado, com sua promessa de um paraíso do qual todo o trabalho seria banido, respondia bem às aspirações deste grupo social que carecia de qualquer consciência de classe nítida e desenvolvida.

O campesinato, arruinado frequentemente pelas guerras, via seus domínios caírem nas mãos de latifundiários, dirigindo-se, sem opção, para as cidades e engrossando as fileiras do proletariado. Outras vezes, resolviam permanecer no campo, na qualidade de operários agrícolas ou arrendatários, pagando seus impostos com parte da colheita ou com certo tempo de trabalho obrigatório nos campos do proprietário.

Ao mesmo tempo, a agricultura italiana começa a decair e os ricos senhores de terras acusam os escravos de causar grandes prejuízos aos campos, de pastorear descuidadamente o gado e de lavrar a terra negligentemente.

Outro fator da decadência econômica era o alto índice de mortalidade escrava e a dificuldade que os mesmos tinham de se reproduzir em cativeiro. Assim, novas guerras eram necessárias para encher os ergástulos, mas as fronteiras do Império eram tais que tornavam impossível novas conquistas.

O preço dos escravos aumentava muito e tornava inviável a sua utilização. O colonato surge como solução. Podia ser exercido tanto por escravos como por homens livres, embora a diferença entre estas duas classes se desvanecesse com o tempo, pois estes últimos, embaraçados pelas dívidas, perdiam o direito de abandonar seus lotes de terra, acabando deste modo por ser introduzidos no sistema escravista. Mas, apesar do colonato, a crise econômica se acentua, os impostos aumentam, o valor da moeda cai, o ouro e a prata se escasseiam nas minas. A opressão econômica e política se intensificam, fazendo surgir a tendência para o pessimismo e o desespero.

Como consequência desta grande instabilidade sócio-econômica, se observam relevantes modificações na ideologia pagã. Passa-se a buscar algo mais profundo na religiosidade do que a simples fertilidade do solo ou mesmo a boa fortuna. O cristianismo surge então como um manifesto da crise ideológica e representa, mais do que qualquer outra doutrina, nos seus primórdios, um protesto das massas contra a ordem antiga e sua cultura. Esta característica cristã de protesto contra a classe dominadora se perde com o tempo e o cristianismo acaba sendo instrumento manipulador da população carente da época.

A religião torna-se um portal que proporciona a fuga dos sofrimentos cotidianos. A filosofia da imortalidade da alma surge como uma esperança de felicidade futura. É importante ressaltarmos que estas mudanças no pensamento pagão, não significam uma aproximação da ideologia cristã, pois no século III a hostilidade entre estas duas seitas religiosas ainda era acirrada. Criticava-se o cristianismo por ser uma religião do além e contrapunha-se a isto a alegria de viver do paganismo, que ensinava o homem a lidar com as diversas arbitrariedades da vida sem, necessariamente, se tornar infeliz com elas. Do ponto de vista pagão a imortalidade existia, mas não podia ser conquistada através de um ato ético-religioso. A própria filosofia amoral, que norteava sua vida, o impedia de ter noções maniqueistas que o impelissem a encarar a imortalidade como um prêmio para o homem de “bons costumes”.

No paganismo tardio, a ideologia sofre modificações e os deuses passam a ser interpretados como intermediadores entre o homem e a imortalidade, tendo o mesmo que aprender a lidar com estes poderes demoníacos, de forma a conquistá-los. Entenda-se aqui, por poder demoníaco, toda divindade ou gênio, bom ou mau, que presidia o destino de cada indivíduo, cidade ou estado, conceito dado à expressão pelos antigos. Isto nada tem em comum com a tola superstição cristista do diabo, espírito maligno ou gênio do mal. Faziam parte deste paganismo tardio, os mistérios de Hécate, da Grande Mãe, de Attys, de Ísis e o culto de Mitra ao qual daremos especial atenção, devido às múltiplas e “sutis” semelhanças entre a vida de Mitra e o Jesus dos crististas.

Os povos primitivos adoravam o sol como figura máxima entre os deuses. Na Pérsia antiga esta adoração era conhecida como religião mitraica, tendo a palavra Mitra o significado de Sol, segundo seus adeptos. A lua era adorada como a grande mãe geradora da vida e o sol como o grande pai doador da vida. O povo, ignorante do profundo significado desta simbologia, adorava os dois astros na sua forma física, mas os sacerdotes, detentores dos segredos da iniciação, sabiam ter estes símbolos um significado sexual em que a Lua representava o polo feminino e o Sol o polo masculino.

Toda religião possui uma lenda através da qual se transmitem simbolicamente algumas verdades, que se expostas de modo explícito ao homem comum, acabam por ser deturpadas e irremediavelmente perdidas.

Segundo a lenda de Mitra, ele teria nascido de uma rocha à beira de um rio sob a sombra sagrada de uma árvore. Alguns pastores da montanha presenciaram este milagre e ofereceram ao divino infante os primeiros frutos de seus rebanhos e colheitas. O jovem herói, porém, encontrava-se nu e exposto ao vento frio. Ocultando-se numa figueira, comeu de seus frutos e de suas folhas fez uma roupa, saindo então para afrontar os poderes do mundo. Encontrou na sua jornada um touro no qual montou agarrando-o pelos cornos. O animal, furioso, tentou derrubá-lo, mas Mitra não cedeu e o touro acabou se deixando levar pela exaustão, ficando cativo na gruta de nosso herói. Após algum tempo o touro foge e Mitra seguindo orientação dada pelo Sol, parte ao seu alcance para matá-lo, acompanhado de um cão fiel. Ao encontrá-lo, mesmo contra a sua vontade, mata o animal. Do corpo do touro brota então o reino vegetal, da espinha dorsal nasce o trigo que dá o pão e do sangue brota o vinho que produz a bebida sagrada dos mistérios.

O espírito do mal lança, então, os seus demônios contra o animal: o escorpião, a formiga e a serpente quiseram então consumir as partes genitais e beber de seu sangue, porém fracassaram. A semente do touro, recolhida e purificada pela Lua, o útero, produziu o reino animal. A alma destes, protegida pelo cão de Mitra, alcançou as esferas celestes, recebendo as honras de divindade.

Mitra, o deus-luz, tinha que proteger a raça adâmica e quando Ahriman, o deus das trevas, assolou a terra com fogo e quis matar de sede seus habitantes, Mitra, o arqueiro divino, perfurou uma rocha com sua flecha e dela fez jorrar água da qual todos puderam beber. Depois veio o dilúvio e Mitra, advertido pelos deuses, fez uma arca, salvando-se a si e a seu gado.

Ao final desta lenda vamos encontrar seu protagonista numa última ceia com os seus iniciados, de onde sobe então aos céus, levado pelo Sol, indo sentar-se à direita do Pai. Lá das alturas protege os fiéis que o escutam e o servem fazendo a vontade do Pai.

Para a casta sacerdotal do mitraísmo, o touro representava o sexo do homem, sua natureza viril e criadora, que simboliza a vida que deve ser sacrificada para produzir vida. Mitra é o HOMEM-DEUS que ao descer à terra para progredir teve necessidade de sacrificar a sua semente (sexo), representada pelo touro. Esta semente deve ser recebida pela Lua-Mulher, ou matéria.

A princípio, Mitra não queria fazê-lo porque isto o tornaria mortal, mas teve que obedecer ao deus Sol e fazendo-o, percebeu que da semente brotavam almas que se convertiam em seres divinos, os quais eram considerados e recebidos como deuses.

Os adeptos deste culto esperavam o Dia do Juízo Final no qual várias pragas assolariam o mundo e o destruiriam. Mitra então, novamente desceria dos céus e despertaria os homens para a vida. Todos se levantarão das sepulturas e a humanidade se reunirá em uma grande assembleia onde o deus verdadeiro separará os bons dos maus.

Como podemos verificar claramente, o mitraísmo é uma religião que divulga intensamente a lenda do salvador e do fim do mundo, sendo considerada uma fé do mais além.

Os servidores do culto recebiam o nome de padres e presidiam as cerimônias, bem como ministravam sacramentos como o batismo e a comunhão. Eram liderados pelo Summus Pontifex e possuíam na ala feminina as chamadas virgens, vestais ou monjas. Tinham como principal comemoração o Natalis Invicti, dia do nascimento de Mitra, celebrada na noite de 24 para 25 de Dezembro.

O culto mitraico foi o ensaio mais organizado para a implantação do conceito do grande salvador, trazendo pela primeira vez de forma marcante ao mundo pagão, a coexistência de dois princípios opostos : o bem e o mal.

O surgimento do maniqueismo corrobora a existência desses dois polos, reduzindo tudo a símbolos nos quais se manifestam os dois grandes princípios: LUZ/TREVAS e DEUS/MATÉRIA.

O Cristo deste sistema é a alma do mundo, filho da luz eterna e redentor, mas apesar das semelhanças não tem uma aparição histórica como Jesus. Esta seita sofre severas perseguições levadas a cabo por pelo Imperador Romano Diocleciano, tendo sua origem na animosidade entre este pensamento e o pensamento da religião velha que se considerava detentora de um direito sagrado. Quase é extinta e só volta a ressurgir com relevante importância no séc. V, quando surge como um perigoso inimigo da Igreja Romana.

Deveras, toda esta confusão cultural, que tem como consequência o ocaso pagão, nada mais é do que o reflexo daquela anteriormente mencionada decadência sócio-econômica do Império, visto que, toda tendência religiosa é o espelho em que se refletem as angústias e as expectativas do conjunto de indivíduos que constituem uma nação. Deus, na interpretação do vulgo, é um incubus criado e moldado pela mente humana, que transtornada pelo medo e inseguranças cotidianos busca em seres superiores a solução para seus problemas básicos.

Com as mudanças espirituais do final do séc. II, o sobrenatural passa a apresentar uma nova conexão com o dia-a-dia das pessoas da época, com a astrologia, a magia e as forças demoníacas predominando sobre os antigos sacrifícios, oráculos e expiações. Paralelamente a isto, temos a extinção das velhas escolas de filosofia como a dos epicúrios, dos cínicos, dos peripatéticos e outras. Começa a surgir uma nova doutrina filosófica, mais dogmática que as anteriores e de certo modo em harmonia com o momento religioso. Estamos falando do neoplatonismo.

O Neoplatonismo, constituía-se em linhas gerais, de uma junção entre as superstições orientais e vestígios dos ensinamentos das escolas de Pitágoras e Platão. Considerava que todas as coisas existentes emanavam de Deus, ordenando-as conforme o grau de associação das mesmas com a matéria. Neste caso elevavam a alma humana a um alto grau, pois consideravam que a mesma emanava diretamente do Ser Divino, acreditando que esta poderia atingir a união com Ele em determinados momentos. Embora o Neoplatonismo divulga-se a crença em um Deus supremo, o Uno, isto não significa que esta filosofia constituí-se um sistema monoteísta, pois o Neoplatonismo incorporava a maioria dos deuses pagãos sob a forma de demônios e, desta feita, o termo demônio passa a ser utilizado para designar seres malévolos que trazem castigos e para toda a humanidade. Era uma mística politeísta na qual os velhos deuses eram considerados supérfluas, a não ser que houvessem sido incorporados à longa fila de demônios neoplatônicos.

A filosofia neoplatônica apresenta toda uma hierarquia espiritual, originada em parte da teologia judaica: em primeiro lugar temos os Deuses, cuja função é purificar a alma dos homens e que assumem o papel de doadores de toda virtude humana; em segundo lugar apresentam-se os Arcanjos que têm sua função identificada com a dos Deuses, embora de maneira menos poderosa; logo após temos os Anjos que desvencilham a alma humana das ataduras materiais; e a seguir vêm os Demônios que maleficamente trazem todo tipo de desgraça aos humanos; temos também as Dominações que conduzem às coisas mundanas; os Tronos que concedem benefícios de ordem material e as Almas que são individualizadas e responsáveis pela geração. Todos os espíritos relacionados acima eram emanados do Uno e exerciam influência sobre o espírito imediatamente abaixo, assim os deuses tinham influência sobre os arcanjos, estes sobre os anjos e assim por diante.

Os neoplatônicos acreditavam que esta ascendência era uma manifestação mágica e que os iniciados em seu sistema possuíam a chave desta magia, conseguindo através de certas conjurações o contato com estes espíritos. As conjurações eram levadas a cabo quando o indivíduo se encontrava num estado de total ausência de paixões e conseguia se identificar com o espírito que desejava invocar. Os utensílios do ritual tinham afinidade direta com o espírito que se desejava convocar e se por alguma razão o rito falha-se, teríamos o surgimento de demônios que simulariam a presença do espírito em questão, sendo prontamente reconhecido através de determinadas técnicas e pelo seu ar fanfarrão. Seguindo a técnica com fidedignidade qualquer indivíduo, mesmo o não iniciado, poderia atingir o objetivo proposto, visto que, o sucesso do ritual não se devia ao nível cultural individual e sim à identificação perfeita entre conjurado e conjurador.

Os ensinamentos neoplatônicos se chocavam diretamente com a velha religião na medida em que pregavam a moralidade, o ascetismo e a abstinência, inclusive sexual, por outro lado, este fato não ocorria em relação aos ideais cristãos, com os quais demonstrava certa afinidade.

Com o objetivo de divulgar a nova filosofia eram criadas lendas a respeito de homens agraciados pelos deuses que, vivendo em abstinência completa, percorriam os “quatro cantos da terra”, anunciando a boa nova e realizando milagres. Exemplos disto foram as lendas criadas em torno de Apolônio de Tiana e Pitágoras, que por terem uma vida um tanto quanto obscura apresentavam os requisitos necessários para a criação deste tipo de personagem.

Assim, segundo a lenda, Apolônio, caminhava descalço pelo mundo, vestido apenas com uma túnica de linho branco, praticando caridade por onde passava, ressuscitando mortos, exorcizando demônios e curando os doentes. Pitágoras, por sua vez, além de realizar milagres, conjurava feras, andava sobre as águas e realizava mais uma série de façanhas que não valem a pena relatar. Todos estes modelos de ascetismo, personificados de modo artificial, tinham suas características retiradas dos penitentes das diversas religiões orientais como os nazarenos, os terapeutas judeus, os magos da Pérsia, os faquires, os hindus etc.

Um outro ponto em comum do neoplatonismo com o cristianismo, seria a crença nos demônios e nas potências intermediárias que atuavam na vida do homem. Definitivamente, com o advento destas duas religiões os seres diabólicos invadem o paganismo.

Para os cristãos, os demônios são forças malignas, inimigas do reino de Deus e que desviam o homem da moral, sendo eles os causadores das doenças, tendo como seus conjuradores os magos, coadjuvantes do reino do mal sobre a terra, mas principalmente, foram os demônios que criaram o paganismo com a finalidade de aprisionar o homem em suas garras e arrastá-lo às profundezas do inferno. Dizem acreditar que os demônios hão ensinado a humanidade a fazer estatuas de heróis e reis para que fossem adoradas como deuses, mas que, na verdade, por trás destes deuses, são eles, os próprios demônios, que se deixam adorar. Reconhecem que estes seres realizam milagres, mas apenas com o objetivo de engrossar a fileira de homens desditosos que se tornam seus fiéis. Acreditam na existência da magia e quando se acusa a Jesus de praticar esta arte, defendem-se afirmando que este personagem realizava milagres em seu próprio nome, enquanto que os magos os realizam com a ajuda diabólica de Satanás.

Concluindo, a aurora de filosofias que se baseavam na transcendência além da morte, faz com que cada vez mais a religião antiga fosse esquecida. O ocaso do paganismo deixou perdido na memória uma das maiores virtudes humanas: a valorização da vida, que encarada como dádiva superior trazia como consequência uma intensa alegria que estava presente em todos os momentos da existência humana.

Esta ausência de valorização da vida favoreceu o surgimento tanto do Neoplatonismo quanto do cristianismo, que introduziram, de maneira marcante, toda problemática do bem e do mal até então inexistente no mundo pagão e deixando para o homem moderno todas as frustrações consequentes à cruel dicotomia espiritual a que fomos expostos desde então.

As religiões em surgimento, a fim de anular a influência pagã, absorvem os seus deuses na forma de demônios, somando a eles características malignas e apontando-os como os grandes causadores da perdição do homem impedindo-o de alcançar a tão desejada vida eterna. Aos poucos, o povo passou a temer as seculares forças protetoras e, como a fragilidade humana sempre a leva a procurar a imagem de um pai supremo, esta se volta para o neoplatonismo e o cristianismo que se encontravam de braços abertos para receber as “pobres ovelhas” que haviam sido cegadas e induzidas ao pecado pelo famoso “lobo mau” (o demônio).

Lobo mau à parte, muito se tem difamado o paganismo através dos séculos. Mas o fato é que esta excessiva e maléfica preocupação com a antiga religião, nada mais é do que uma maneira de expressar o fascínio que a liberdade pagã ainda exerce sobre nossos espíritos até os dias de hoje. Assim, uns falam em ressurgência atávica, outros em átomo Nous, outros em reencarnações passadas, etc. Deixando o ego teológico de lado, visto que termos são apenas formas de limitar o pensamento, a verdade é que, de alguma forma, o modo de vida de nossos antepassados ficou gravado nos recôncavos de nosso ser e vez por outra chama baixinho nos incitando a buscar a liberdade há tanto tempo perdida, mas nunca esquecida. O medo de que um dia este chamado não possa ser mais abafado faz com que os monopólios religiosos da atualidade associem cada vez mais o pensamento pagão à ideia de pecado e perversão, mas há certos anseios que jamais poderão ser calados…

Brilhai, oh crianças, sob as estrelas!

Todo aquele que estudar o paganismo com a tacanha moral vigente há de incorrer em erro. O paganismo foi e será sempre um hino de adoração à liberdade de viver e de se manifestar, um eterno conluio entre o homem e as coisas naturais, além de uma inesgotável fonte de uma sensualidade, tão ausente de preconceitos, que acaba por se tornar sagrada.


Autora: Soror O. Naob