Cartas na Mesa

Não é incomum que os que seguem o Ocultismo ou o Esoterismo estudem o Tarot. Também não é incomum que, com a prática e o aperfeiçoamento, esses comecem a deitar as cartas para outras pessoas e, eventualmente, tornem-se profissionais do ramo. Quando isso acontece, algumas coisas devem ser consideraras pela pessoa que deseja tornar-se um tarólogo profissional.

A primeira delas, claro, é o segredo. Um consulente é alguém que está depositando sua confiança no tarólogo. Essa pessoa irá contar coisas pessoais (por vezes muito pessoais), irá revelar segredos e abrir-se com o profissional à sua frente; da mesma forma que faria com um psicólogo, um médico ou um advogado. Mas, além disso, o tarólogo poderá ver nas cartas à mesa outros detalhes também íntimos, perturbadores ou delicados. Pode parecer estranho que isso deva ser dito mas muitos não consideram que tudo, absolutamente tudo o que se diz durante uma consulta é considerado como segredo profissional. Nada do que foi dito pelo consulente ou que tenha sido visto nas cartas deve ser dito ou comentado para com nenhuma outra pessoa, por mais íntima que esta outra pessoa seja do consulente ou do tarólogo, a não ser que haja um expressa autorização para tanto por parte do consulente.

Outra coisa que deve ser considerada é a verdade. É mais do que óbvio que um tarólogo não deva inventar coisas a serem ditas. Se uma mandala não está dizendo absolutamente nada, isso deve ser explicado ao consulente e uma nova mandala deve ser aberta. Não se pode simplesmente inventar coisas a serem ditas ao consulente como se estivessem colocadas ali à sua frente. Da mesma forma o que estiver exposto nas cartas deve ser dito em sua justa medida. Não de deve aumentar ou diminuir o que está ali pela simples vontade do tarólogo. Uma coisa que seve ser sempre lembrada é que a mensagem ali sendo passada não é para o tarólogo e sim para o consulente e quem deve entende-la é ele, com a ajuda do tarólogo. Ou seja, não invente nem omita.

Terceira consideração: isenção. Não são as opiniões do tarólogo ou suas questões e experiências pessoais que estão sendo ali analisadas e sim as do consulente. Um profissional do Tarot não deve jamais emitir julgamentos tanto a respeito de informações passadas pelo consulente quanto pelas passadas pelas cartas. Ao consulente não importam as opiniões do tarólogo e sim apenas o que está sendo passado pelas cartas. Da mesma forma não importam seus conceitos morais, éticos ou de vida. Assim, deve-se sempre evitar julgar e opinar durante a leitura das cartas. Isso, no mínimo, é uma questão de respeito ao ser humano à frente do tarólogo. A função de um tarólogo profissional é apenas a de transmitir uma mensagem das cartas para o consulente.

Por fim devemos considerar também a responsabilidade, a mais importante de todas. Com uma consulta, o tarólogo está assumindo uma responsabilidade pela alma e a mente do consulente. Tudo o que for dito durante uma consulta irá possuir um certo impacto sobre quem está ali. Superficial em alguns, profundo em outros; mas sempre deixará uma marca no consulente. Cabe ao tarólogo passar a mensagem de uma forma que não choque ou tenha efeitos deletérios sobre a pessoa. Um palavra errada dita de forma errada pode causar um grande trauma e prejudicar de forma tremenda a vida de alguém. Assim, tudo o que for dito ou feito durante uma consulta deve ser dito e feito da forma mais responsável possível.

Assim o sendo, esses quatro pontos — segredo, verdade, isenção e responsabilidade — podem ser considerados como a base ética de um tarólogo profissional. Um profundo conhecimento da simbologia e das mandalas é fundamental para todo aquele que deseja fazer uso do Tarot mas é insuficiente para os que desejam utiliza-lo profissionalmente. Para estes é necessária também a observância à ética e um certo conhecimento do ser humano. Um tarólogo profissional deve pensar quase como um psicólogo, mantendo o mesmo respeito por seus consulentes e tendo em mente que sua responsabilidade maior, naquele momento, é prestar auxílio a uma pessoa que foi busca-lo no Tarot.

E uma consideração final. Muitas pessoas viciam-no no Tarot, passam a buscar nas cartas a resposta para toda e qualquer questão de suas vidas, das mais amplas às mais banais. Quando uma pessoa destas gosta de um tarólogo ela começará a procura-lo com frequência cada vez maior. Para um tarólogo profissional uma pessoa assim seria uma autêntica mina de ouro, uma fonte confiável e constante de dinheiro. Porém esse tipo de comportamento jamais deve ser incentivado. Um tarólogo profissional sério vai tentar fazer com que esse consulente compulsivo busque resolver seus problemas usando suas próprias capacidades ao invés de utilizar o tarólogo como uma muleta para sua vida. Caso não consiga pode ser necessário que o tarólogo recomende a essa pessoa a ajuda de um psicólogo. Caso contrário essa compulsão irá tornar-se cada vez mais intensa e a dependência entre consulente para tarólogo mais profunda e difícil de lidar por ambas as partes, o que terminará tornando-se uma inconveniência para o próprio tarólogo.


Autor: Frater Episkopos