Astrologia & Ciência

Amiga minha da época de faculdade comentou debate sobre Astrologia que assistiu no Planetário da Gávea. Curiosamente, promovido por um biólogo e um astrônomo, só.

Como já se deduz, o tal debate era na verdade uma exposição da crítica à Astrologia. Segundo a testemunha, basearam-se em dois pontos: análise estatística e o caso dos gêmeos. Vamos agora expor as falhas desta abordagem.

Não chegando ao ponto de afirmar a impossibilidade de uma pesquisa estatística (ver a pesquisa dos Gauquelin), o fato é que o mapa natal é um sistema caótico, onde o grande número de fatores em interação torna ineficaz qualquer análise de elementos isolados. Como exemplo, podemos ver o testemunho de Marte na Casa 8 como indicação de morte prematura e violenta. Este é um exemplo de interesse pessoal, já que ocorre no meu mapa. Pesquisando os mapas de personalidades famosas disponível no aplicativo do Janus, selecionei as quatro que se encaixavam: Abraham Lincoln, John Kennedy, Princesa Diana e Hitler. Bom, todos os quatro tinham Marte no signo da Cúspide da Casa 8. Isso pode ser considerado um dado estatístico? Claro que não, uma análise estatística precisaria de uma amostragem muito maior de pessoas com Marte na 8; e eu duvido que, mesmo que fosse possível conferir um número significativo de mapas confiáveis com Marte na 8, se conseguisse uma porcentagem significativa de mortes que indicassem a confiabilidade desse testemunho. Por quê? Por que não basta termos Marte na 8, é preciso checar o Estado Zodiacal do mesmo, ou seja, o ponto do Zodíaco em que se encontra, os aspectos que forma com os demais planetas e o estado zodiacal do planeta que o dispõe, considerando que Marte não esteja em Áries ou Escorpião.

Três dos mapas apresentados, com exceção do de Hitler, apresentam Saturno como Almutem. Ora, Saturno como Almutem do mapa também é testemunho de morte prematura. Temos então a concorrência de dois fatores para confirmarem uma previsão, o que teria que ser levado também em consideração em uma pesquisa. No caso de Hitler, não se sabe ao certo as circunstâncias de sua morte, levando-se em conta que tenha mesmo ocorrido durante a invasão de Berlim, e um possível suicídio. Seu Almutem era Vênus.

O argumento dos gêmeos é antigo, a menção mais antiga que conheço é do livro das Confissões de Santo Agostinho. É um argumento de quem ignora questões básicas de Astrologia, desconhecendo que uma diferença de cinco minutos muda muita coisa em um mapa. Quanto tempo decorre entre o dar à luz do primeiro gêmeo e do segundo? Mais do que o bastante para que cúspides mudem de signo e planetas de casas.

Um caso mais interessante seria o de mapas idênticos. Como apontei, o mapa é um sistema de alta complexidade, e por isso só permite considerações gerais, precisando ser reanalisado com frequência até que se comece a perceber com maior acuidade sua manifestação. Assim, deve ser considerado como um sistema caótico, cuja trajetória de ação não segue gráfico cartesiano, mas caótico. Isso significa que o gráfico de ação de um mapa é representado por uma área não uniforme, com áreas de maior probabilidade que em Física Quântica chamam-se de “atratores estranhos”. Esses atratores representam momentos chaves do desenvolvimento da vida da pessoa que permitem uma maior acuidade de previsão. Uma boa comparação é com a meteorologia, também uma Ciência voltada para a previsão de eventos futuros. A previsão da meteorologia é difícil porque o clima do planeta também é um sistema de alta complexidade, afetado por vários fatores ainda pouco conhecidos. Assim, podemos prever que em dez anos um número aproximado de furacões irão afetar a Costa Oeste do EUA, podemos prever com alguns dias de vantagem a ocorrência do próximo, mas dificilmente acertaríamos a semana do próximo semestre em que teríamos um.

Em Ciência temos os métodos dedutivo e indutivo. O dedutivo parte do geral para o particular. É por esta abordagem que os cientistas criticam a Astrologia: do conhecimento geral que temos de Física e Astronomia conclui-se a impossibilidade da primeira. Como a Astrologia baseia sua práxis no movimento aparente dos planetas e sua teoria na visão ptolomaica-aristotélica que caiu com o heliocentrismo, ela é um erro de tempos passados. Mas a práxis da Astrologia se baseia simplesmente em um conveniência na marcação dos tempos, que se respalda na observação da correlação entre fatos específicos e a posição dos planetas. O método de pesquisa astrológico logo é indutivo, partindo do particular para o geral. A sua práxis se fundamenta na observação de que há uma concordância significativa entre os dados astrológicos e os eventos que ocorrem na vida das pessoas, mas é preciso um estudo profundo aliado a uma larga experiência para se conseguir extrair análises e previsões que tenham uma porcentagem de acerto que as justifiquem. É importante se reconhecer primeiro que a interpretação astrológica trabalha na análise e previsão de uma interação que ocorre entre um fenômeno quântico desconhecido, mas que revela uma influência direta da posição dos planetas em relação à Terra, e o ser humano, ambos objetos de Ciências que não podem ser exatas. Segundo, que essa práxis se baseia na coleta de dados levada a cabo de forma não sistemática por séculos, e não submetida a uma análise suficiente. Terceiro, que sua eficiência depende da confiabilidade dos dados apresentados, que raramente são precisos, e da capacidade e experiência do astrólogo. Por fim, como técnico de uma interpretação de dados humanos, a eficiência deste é variável como a de, por exemplo, um psicólogo, e sujeita a erros como, por exemplo, a de um médico.


Autor: Frater Al-Dajjal