As Inteligências Neoplatônicas do Rubi Estrela

Os nomes Iunges, Teletarchai, Sunoches e Daimones, que são invocados no Ritual Rubi Estrela, são inteligências do Neoplatonismo, originárias dos Oráculos Caldeus (Chaldean Oracles), falsamente atribuídos a Zoroastro e que contém a doutrina e a filosofia da antiga Babilônia. Cada um destes nomes não identifica um ser em particular, cada um destes nomes se refere a uma determinada classe de semideuses, no caso dos três primeiros, e o último se refere as seres espirituais em menor posição hierárquica. Os Iunges, Sunoches e Teletarchai, que podem ser ligeiramente traduzidos como Rodopiantes, Conectores e Aperfeiçoadores, pertencem à Segunda Ordem da Hierarquia Emanacionista, à Segunda Mente, ao Mundo Empírico, no sistema dos Oráculos Caldeus. Neste sistema, eles são os intelectuais e inteligíveis e formam a “Tríade Intelectual”, os Três Supernais. Note-se que aqui “intelectuais” e “inteligíveis’ nada tem a ver com o com seus significados comuns, e seus reais significados só podem ser perfeitamente compreendidos acima do abismo. A Tríade Intelectual se origina dos Pensamentos do Pai, uma Inteligência Superior e Fonte todas as Coisas. Eles são os guardiões das obras do Pai e da Mente Única, a Inteligível. Os Daimones são espíritos que estão abaixo do abismo. Segundo estudiosos modernos, Iunges, Sunoches e Teletarchai, correspondem, respectivamente, a: Chockmah, Binah e ao Pilar Mediano, e não exatamente às três Sephiroth Supernais da Qabalah Hebraica ou da Ocidental.

Todos estes são “Espíritos Mediadores” e são essenciais nos Ritos Teúrgicos. Eles participam no governo do universo mantendo os canais de influência e vínculos de harmonia emanados de Nous (Inteligência em Grego). Eles são os Iniciadores (Iunges), Mantenedores (Sunoches), Aperfeiçoadores (Teletarchais) e Executores (Daimones) do Impulso Criativo Divino que se origina no mundo inteligível e se manifesta no mundo sensível.

Iunges (os Iniciadores)

São os que dão poderes às Ideias Simbólicas, Signos, e Símbolos usados nos Ritos Teúrgicos. Aeschylus usou esta palavra para metaforicamente se referir a “encanto, feitiço, desejo ardente e apaixonado”. A palavra vem do grego IUGMOS denotando um som agudo e foi usada para se referir ao som emitido pelo pássaro chamado wryneck, significando “grito”. O wryneck, cujo nome em português é torcicolo, é um pássaro semelhante ao pica-pau e recebe este nome (torcicolo) devido ao seu hábito de torcer a cabeça e o pescoço. Ele é conectado ao simbolismo da roda. Os antigos Feiticeiros Gregos os utilizavam como amuletos, amarrando-os a rodas em movimento para que recuperassem amantes infiéis. Os Iunges são, metaforicamente, o grito dos wrynecks na roda em movimento.

Os Iunges são inteligências conceptivas, férteis, fecundas. Assim, eles fecundam os os Sunoches (os Conectores), e o resultado disto serão os Teletharcai. Os Iunge é o Operador; o Doador de Vida que porta o Fogo Noético (de Nous); ele enche o peito de Hécate, a Mãe Natureza, fornecendo a vida; e instila (introduz gota a gota) nos Synoches a força vivificante do Fogo Noético, dotando-os com vigoroso Poder. Os Iunges são uma conjuração, os Synoches são uma ligação, com amor (Amor sob Vontade), conectada e forte. Nesta visão, fica muito coerente ligar os Iunges à Chockmah e os Sunoches à Binah, pois também na Qabalah Chockmah (AB, o Pai) fecunda Binah (a Mãe Supernal). Nesta linha, eu me atreveria a associar os Teletarchai com o Microprosopus, ou o Pequeno Rosto, composto pelas seis Sephiroth posteriores lideradas por Tiphereth.; sendo Tiphereth um grande símbolo de Iniciação. Continuando neste pensamento, eu diria que os Daimones seriam os espíritos mais próximos a Malkhut, que estão entre Malkuth e as demais Sephiroth, seriam o que poderíamos de certa forma chamar simplesmente de anjos.

Teletarchais (os Aperfeiçoadores)

Os “Mestres da Iniciação”, são os principais seres nesta Teurgia. Também são chamados de: Mestres de Cerimônia, Mestres do Templo, Hierofantes. A palavra Teletarchai se origina das palavras gregas telete ou “rito” (especialmente de iniciação aos mistérios) e archon/archai, que significa “senhor” ou “líder”, sendo assim o “senhor do rito”. Eles não são apenas conectados à própria iniciação, mas também ao resultado de uma iniciação. Teletarchai é o resultado dos “Iunges fertilizando os Sunoches”. Os Teletarchais são chefiados por Eros, e são aqueles que unem as Ideias. Antes das ideias serem criadas, Eros saltou da Inteligência Paternal, e misturou o que viriam a ser as Ideias, cujo estado embrionário existia nesta mesma fonte, por meio de Seu Fogo de União (União aqui é igual a: Encantamento de Amor). Pois sem seu poder de união, as Ideias não poderiam ser consolidadas dentro do Logos. Três tipos de Teletarchais são os Kosmagoi ou Governates dos Três Mundos Neoplatônicos (Empíreo, Etéreo, Material): Aiôn (não o Deus inefável de mesmo nome), Helios, e Selene. Note que os Iunges são os Iniciadores, os que plantam a semente, e os Teletarchai os Mestres da Iniciação.

Sunoches (ou Synokheis — os Mantenedores)

São os Conectores, são aqueles que mantém unido, inseparável, o elo, a ligação. Eles se referem à noção de eternidade. Para compreender os Sunoches deve-se compreender os Iunges.

Daimones (os Executores)

É o plural de Daimon e se referem a “seres do mundo espiritual”. Nos Oráculos Caldeus, a tríade Iunges/Teletarchai/Sunoches fazem parte de um grupo específico, mas Daimones recebem uma diferenciada classificação. Neste sistema, os Daimones são classificados inferiores aos semideuses, sendo assim espíritos mais ligados ao ambiente terrestre que ao espiritual propriamente dito. Não obstante, a direção norte, a da mais vasta escuridão, pertence a eles. Hesíodo se referiu ales como “as almas da Idade Dourada que formaram um vínculo entre os deuses e os homens”; na verdade são eles que conectam os homens com as três inteligências (semideuses) anteriores. Nesta linha, os Daimones poderiam ser considerados como um grupo de pessoas que alcançaram as sua Verdadeiras Vontades. De fato eles estão conectados com a Verdadeira Vontade, e há quem os considere como sendo o SAG (Sagrado Anjo Guardião). O nome Daimones pode causar uma ligeira confusão, já que com o advento do Novo Testamento o nome passou a ser uma referência para “demônio”, mas a palavra Daimon (no singular) é anterior a este Testamento e se refere mesmo a seres do mundo espiritual, puros indiferentes, amorais, eles são dependentes da natureza humana. Daimon pode variavelmente se referir a: deus, deusa, gênio, etc.

Iunges
Teletarchais
Sunoches
Daimones
Iniciadores Aperfeiçoadores Mantenedores Executores
Rodopiantes Senhores do Rito Conectores Espíritos
Encantos/Feitiços Mistérios Restrições Gênios

Agora, poderíamos traduzir assim as invocações do Rubi Estrela:

  • PRO MOU IUGGES: Diante de mim os Encantos/Feitiços.
  • OPISO MOU TELETARKAI: Atrás de mim os Mistérios.
  • EPI DEXIA SUNOKES: É minha direita as Restrições (no sentido de manter preso a algo).
  • EPARISTERA DAIMONES: É minha esquerda os Gênios.

Este é apenas um breve estudo sobre estas Inteligências que aparecem na Quarta parte do Ritual Rubi Estrela. Vale lembrar que, mesmo tendo-se ideia de seus significados, é sempre importante que as invocações destas Inteligências sejam feitas com seus próprios nomes bárbaros, pois estes são mais eficazes.

Referências Bibliográficas

  • Chaldaean Oracles Zoroaster, The. Editado e revisado por Sapere Aude (William Wynn Westcott) com uma introdução por L. O. (Percy Bullock). 1895 e.v.
  • Chaldaick Oracles of Zoroaster And his Followers, The — With the Expositions of Pletho and Psellus. Editado e traduzido para o Inglês por Thomas Stanley, Londres- Impresso por Thomas Dring, 1661 e.v.
  • Analysys of the Star Ruby Ritual, An. Por Frater A.L. (443).
  • Summary of Pythagorean Theology, A. John Opsopaus.
  • Notas de Frater Sabazius para o Rubi Estrela.
  • Notas de Praecentor para o Rubi Estrela.

Autora: Soror Agarath