Altera Sacra

Pois é, a coisa não está fácil. A sociedade brasileira já está vivendo em uma cultura de ódio, onde mais importante do que dialogar com um opositor é eliminar o opositor. Poucos, hoje em dia, se dão ao trabalho de escutar, considerar, argumentar. Parte–se logo para a agressão pura e simples; se for agressão física a turma fica ainda mais agitada. Quando começamos a falar de religiões e sacralidades, um assunto que já “não se discute”, a coisa tende a piorar ainda mais. Ânimos de exasperam, pedras voam e deputados berram.

Ainda bem que essas coisas não acontecem no meio Thelêmico, não é?

Acontece que acontecem. E de forma tão exacerbadamente idiota quanto em qualquer outro meio. Uma coisa que se entende com uma certa compreensão de Thelema é o respeito às escolhas do outro. Você não é obrigado a concordar ou aceitar, mas entende a responsabilidade de respeitar, independentemente de sua opinião pessoal. Infelizmente, nem sempre isso acontece. Tem muita gente por aí que é um grande defensor da liberdade: da sua própria liberdade e da liberdade dos outros aceitarem só o que ele quer e que se danem se pensarem diferente. Claro que poderíamos ficar aqui coisa de duas semanas discutindo só isso. Mas, por enquanto, vamos nos focar na questão religiosa.

Todos temos uma forma de encarar a religião, que pode ser resumido em: a minha é a melhor. Claro, se você não achasse que a sua escolha religiosa é a melhor, por que diabos estaria seguindo aquela religião? Mas se “a minha é a melhor”, qualquer outra que não seja “a minha” é, por definição, pior,  inferior, errada, herética, histérica, feia  e  cara de mamão. Não é mesmo? Não,  Joãozinho,  não necessariamente. Afinal de contas, em termos de religião, espiritualidade, ou seja o que for, tudo o que sustenta a validade disso é a fé. Religião dispensa a validação da prova científica, da demonstração prática. Sustenta–se apenas em sua lógica interna (até porque senão vira bagunça) e na crença dos fiéis de que aquilo é uma verdade. Ou seja, até onde podemos saber, nada impe- de de que a Grande Verdade da Vida, Universo e Espiritualidade© possa ser conhecida apenas por três velhinhas otagenárias do Cazaquistulhão Setentrional e esta seja que não passamos de flocos de milho flutuando em uma grande tigela de gelatina de limão. Vai saber…? Pessoalmente, espero que não.

Mas, voltando à vaca fria, o problema começa quando você tira do outro o seu direito ao pensamento religioso próprio. Ou mesmo o direito de ter um pensamento religioso, como fazem algumas linhas do neo—ateísmo. É muito comum vermos Thelemitas depreciando cristãos, cristãos depreciando outros cristãos, que por sua vez  depreciam o povo de santo, que olha torto para os umbandistas, que falam mal de judeus… e por aí vai. Cada um considera–se como O Dono da VERDADE e olha para o outro como um pobre coitado que não apenas não sabe de nada, mas deveria ser varrido da face da Terra. Claro que temos nossas diferenças e estas podem e devem ser debatidas: com respeito e argumentação, não com xingamentos e despeito. Claro que se os seguidores de uma determinada religião começam a nos afetar na esfera social e pessoal devemos agir em prol do direito e da privacidade. Isso são outros quinhentos. Mas mesmo isso não nos dá ao direito de rotular e entrar em um ciclo de preconceitos contra quem quer que seja.

Ninguém é obrigado, seja por lei, seja por um posicionamento ético, a aceitar a religião ou espiritualidade alheia como sua. Na verdade, essa é uma das garantias mais fortemente estabelecidas por um estado laico: a da liberdade de crença e religião, ou ausência de. Mas a recíproca é  verdadeira. O  outro também não  é obrigado a aceitar o que você considera como sagrado. E pelas mesmas razões, ok? Isso é respeito mútuo.

Ah, mas é tão fácil cobrar dos outros o respeito ao seu próprio Sagrado. Mas como podemos cobrar que alguém respeite o nosso Sagrado quando agimos exatamente da for- ma oposta? Como agir com dois pesos e duas medidas? Isso tem nome. E não é “Vandernelson”, é hipocrisia. Respeito é uma via de mão dupla. E também é Thelema: dar ao outro a mesma liberdade que desejamos para nós.

Mas como podemos nos  dar ao direito de escolher a forma de guiar nossas vidas se não damos ao outro o mesmo direito? E quando falo isto, não me refiro apenas àqueles que simplesmente procuram o primeiro evangélico na rua para ficar falando que “Jesus não existiu” ou que vá a um Sabbath apenas para atrapalhar a cerimônia ou coisa semelhante. Isto é simplesmente a face mais visível do assunto. Refiro–me também ao que fazer quando alguém de outra religiosidade começa a fazer bolinho de tapioca da sua. Defenda–se, é claro! Mas faça–o mostrando respeito pela escolha alheia. Mostre ao outro que suas ideias não coincidem em um ponto sequer, mas deixe claro que você respeita o ponto de vista dele e que gostaria de ter o seu respeitado também. Não é preciso tratar o outro como se fosse um retardado mental só por suas ideias distintas da sua.

No final das contas, tudo se resume àquela velha máxima de tratar aos outros como gostaria que os outros o tratassem. Muitas pessoas têm a ideia de que respeito é algo que se impõe. Isto é errado. Respeito é algo que se conquista agindo de uma forma respeitável. Respeitável pelos padrões da sociedade? Nem sempre. Mas sempre respeitável pelos padrões do Ser Humano.


Autor: Frater Hrw