A O.T.O. no Brasil

A história da Ordo Templi Orientis no Brasil

 

Introdução

Desde seu nascimento em 1995 até sua maioridade, os detalhes da história da O.T.O. no Brasil perpassam a vida de diversos personagens da história de Thelema, bem como seus conflitos, esperanças e trabalho.

té então, pouco foi escrito sobre os detalhes da história da Ordo Templi Orientis desde a sua chegada e estabelecimento no Brasil. Rumores, versões estritamente pessoais, ausência de dados precisos e às vezes até manipulação de fatos têm até agora sido responsáveis por uma desinformação que nubla parte do trabalho realizado pela Ordem, impedindo-o de vir devidamente às claras. Com esse texto, que é uma versão resumida, da história da O.T.O. no Brasil, pretendemos pôr luz em pontos que foram tornados obscuros. Dentro de algum tempo, será divulgada uma versão completa e detalhada dos fatos listados aqui.

Fazer História é reviver e entender os passos da jornada de escolhas que nos fizeram ser o que somos. Momentos difíceis foram ultrapassados, percalços nos combaliram e vitórias aliviaram o suor do trabalho. Após 17 anos de atividade, ainda existe muita fantasia sobre a O.T.O. e mesmo sobre a história de Thelema e dos personagens que a fizeram ativa e que a mantêm assim no Brasil. Somos parte dessa história, e portanto entendemos ser nosso dever contribuir com a porção da verdade que temos ao nosso alcance. Esperamos que o presente e futuro se beneficiem disto.

Esperamos também que a utilidade pública de todas essas experiências possa ser usufruída por todos com a intenção de realizar um trabalho sério.

Que todos façam uma boa viagem.

Prólogo: a Sociedade Novo Aeon

Em meados de 1993, a Sociedade Novo Aeon (SNA) de Frater Aster (também conhecido como Thor) operava no Rio de Janeiro. Alguns nomes se conheceram graças a esse grupo e ali trabalharam juntos, como Soror Babalon (na época com o mote de Hathor, e eventualmente Shaitara, Legião e O. Naob) e Frater Sorath (nesta altura com o mote de P.A.N., e eventualmente também Baphomet). Naquela altura, estavam em atividade dois grupos da SNA no Rio de Janeiro: o pioneiro, a Loja Therion, sob liderança de Sorath, e a Loja Thelema, mais jovem, sob liderança de Q.V.I.F. (também conhecido pelo mote Sekhem). A Loja Therion, apesar de ativa há mais tempo, ministrando instruções teóricas, só dispunha de cerca de cinco membros, motivo pelo qual Sorath decidiu encerrá-la. Restou o grupo Thelema, que estava sob a liderança de Q.V.I.F., ao qual se integraram os remanescentes do grupo que havia sido fechado.

Em complemento às instruções da SNA, Soror Babalon, Sorath e outros como Wo-Loki e também a ex-esposa de Q.V.I.F., Soror Lilith, resolveram se encontrar para estudar antes das reuniões da SNA. Na ocasião, Q.V.I.F. interpretou tais reuniões como a criação de um grupo dissidente que supostamente rivalizaria com os trabalhos da Loja Thelema. Ele se encaminhou para a cidade de Paraíba do Sul, RJ, onde então residia Aster, e o pressionou para que expulsasse os “dissidentes”. A resposta de Aster foi enfaticamente contrária, uma vez que ele encarou como positiva a iniciativa de estudantes se encontrarem e debaterem. Disso resultou, naquela altura, o rompimento de relações entre Q.V.I.F. e Aster.

A Loja Thelema, a partir desse momento, não pertenceria mais à Sociedade Novo Aeon. A crise culminaria num episódio em que Soror Babalon, Sorath, Wo-Loki e Lilith, avisados por Aster do que tinha acontecido apenas quando já estavam a caminho de uma das reuniões da Loja Thelema, foram proibidos de entrar na sala do grupo e impedidos de pegar robes e materiais pessoais seus que lá estavam.

Tais desentendimentos coroavam o estado de contínua estagnação que era o trabalho da SNA. Com mais esquematizações de projetos do que prática, apenas poucas instruções teóricas eram ministradas e, principalmente, nenhuma estrutura iniciática era oferecida. Essas lacunas levaram esse grupo – integrado por Soror Babalon, Frater Sorath e Frater Aster – a uma crescente frustração com a organização do movimento thelêmico no Brasil. O próprio Aster, fundador da SNA, confessava a desorganização em voga e considerava que o trabalho não ia bem: tanto o grupo brasileiro que ele nomeava de Astrum Argentum (A∴A∴) como a SNA, que apresentava-se eventualmente como sendo “O.T.O.”, baseavam-se mais em contatos informais, mudanças de planos e projetos vagos do que num trabalho impessoal e sistemático. Nesse contexto, Frater Aster forneceu a Soror Babalon e Sorath o endereço de contato com a O.T.O. e os dois começaram os planejamentos para trazer a Ordo Templi Orientis para o Brasil, na esperança de estabelecer uma estrutura iniciática sólida.

Vale reparar que, em nosso país, muito foi dito a respeito da O.T.O., principalmente por Marcelo Ramos Motta, mas na maioria das vezes também se fez uma grande confusão sobre a representação da Ordem, confusão que não raro se estendeu também sobre suas associações com a A∴A∴ Infelizmente, essa desinformação permitiu que grupos se formassem usando o nome da O.T.O. e que pessoas que nunca fizeram parte da Ordem se apresentassem como iniciados dela, com versões pessoais do que seria o seu trabalho, mesmo nunca tendo qualquer tipo de experiência ou conhecimento sobre o real trabalho da O.T.O, nem mesmo autorização para usar o nome da Ordem ou para atuar como seus representantes. O próprio Motta, embora assinasse como membro da Ordem e tivesse até mesmo formado a “Society Ordo Templi Orientis”, nunca foi iniciado na O.T.O.: sua relação na verdade era com Karl Germer, que era Frater Superior da O.T.O., mas cuja associação com Motta dizia respeito unicamente a A∴A∴

Nenhum esforço efetivo para trazer a Ordem para o Brasil havia sido realizado com sucesso até então, havendo, portanto, apenas grupos esparsos que assumiam o nome O.T.O. como uma roupa do estilo de trabalho que melhor lhes convinha realizar. A O.T.O., oficialmente, nunca esteve presente no Brasil antes de 1995 e.v.

A esse grupo original veio a se unir Iskuros Australis que, sem saber da ruptura com a Sociedade Novo Aeon, tinha pretendido se unir à Loja Thelema, mas, insatisfeito com o ambiente de convívio e com o valor de taxas financeiras cobradas pelo grupo de Q.V.I.F., procurou conselho em correspondência com Frater Sorath, na altura seu instrutor no grupo que Frater Aster considerava como sendo a A∴A∴ Esse contato pôs todos em reunião e Iskuros se integrou ao movimento que trabalhava para trazer a Ordo Templi Orientis. As comunicações preliminares e negociações seriam então feitas com a O.T.O. para que um grupo de Iniciação fosse enviado para o Brasil.

Gestação: primeiras iniciações

Em 8 de dezembro de 1995, uma comitiva de três membros da O.T.O. embarcou para o Brasil. Eram eles Frater Sharash, Frater S. e Frater A.S.B., hoje conhecido como L.M.D. A comitiva ficou hospedada na casa de Soror Babalon e Sorath, na Tijuca, onde se estabeleceram para conhecer tanto os novos Thelemitas que os convocaram, como também a cidade do Rio de Janeiro.

Frater Sharash, em artigo para o site da Loja Scarlet Woman, no Texas, descreve a seguinte experiência:

Eu nunca recebi um nível tão grande de hospitalidade em nenhum lugar como a que esses irmãos e irmãs providenciaram para nós. As iniciações foram trabalho pesado, mas compensaram mil vezes mais que qualquer quantidade de suor que possamos ter derramado nelas.

No dia 14 de dezembro de 1995 seriam feitas as primeiras Iniciações ao Grau de Minerval, e no dia 16 de dezembro seriam feitas as do Grau I. No dia 17, seriam ainda ministrados os primeiros Batismos e Confirmações da Ecclesia Gnostica Catholica (E.G.C.). Para tudo isso, um apartamento no bairro de Laranjeiras foi alugado. Frater Aster, no entanto, não iniciara com os demais. Na verdade, durante o jantar de reunião, onde apresentariam Frater Aster à comitiva dos EUA, ele começou a se sentir mal. Soror Babalon, sendo médica, identificou sintomas de um infarto e então o levaram para a emergência de um hospital.

Mesmo combalido, mal tendo deixado o CTI, Aster insistiu para ser iniciado ao menos no Grau de Minerval. No mesmo dia em que o grupo de iniciação embarcaria de volta para os EUA, Frater Aster foi iniciado em sua própria casa, no Grajaú, zona norte do Rio de Janeiro.

No entanto, logo após o Ritual, ele se dirigiu a Frater L.M.D. e lhe pediu o IX Grau, no qual está o Segredo Central da Ordem. Segundo Aster, Marcelo Motta já teria lhe “explicado” o Segredo. Seria, na sua mente, apenas uma questão de confirmação oficial. L.M.D. explicou não funcionar assim: possuir o texto de algumas instruções deste grau não torna a pessoa iniciada nele, isto é, não a torna verdadeiramente conhecedora e praticante do Segredo. Aster, apesar do seu renome na história de Thelema no Brasil, deveria trabalhar nos graus da O.T.O. apropriadamente e provar sucesso neles desde o começo.

Era o começo do fim de uma mentalidade instituída há muito tempo no Brasil de que graus representam exclusivamente patentes formais. Desde Motta – e Frater Aster deu continuidade a este legado –, distribuía-se e revogava-se “cartas patente” com graus, inclusive supostamente o IX, não raro apresentado como um elegante pergaminho. Assim, com a mesma facilidade que se obtinha o “grau IX”, também o “perdiam”, retirado quando o “iniciado” desagradava politicamente àquele que lhe havia conferido o grau, como se a Iniciação estivesse contida num papel. Marcelo Motta, inclusive, procedeu dessa maneira com Frater Aster.

Insatisfeito em ter seu pedido recusado, Aster não entrou mais em contato com a O.T.O. e sequer compareceu aos trabalhos do primeiro Corpo Local no Brasil. Em outubro de 1996, ele pediu desligamento oficial da Ordem. Apesar disso, sua relação com Soror Babalon e Frater Sorath continuou amistosa.

Estava, assim, formado o primeiro grupo da O.T.O. em terras brasileiras, mas suspenso numa espécie de vácuo: de um lado, a mentalidade brasileira do trabalho, cheia de esperança e empolgação, mas ao mesmo tempo pueril, cheia de vícios históricos e ignorante da dureza que é o estabelecimento e continuidade de um projeto. Além disso, nenhum deles sabia exatamente o que de fato era a Ordo Templi Orientis, lhes sendo, até então, uma Ordem de sonhos vagos. Assim, os passos seguintes da O.T.O. no Brasil foram tropeços como de uma criança.

Infância: liderança & conflitos

Para requisitar às lideranças internacionais da Ordem o nascimento de um Corpo Local, era necessário que estabelecessem entre si os cargos administrativos que cada um iria desempenhar. Em conversa entre os membros brasileiros, foi decidido que Iskuros Australis, por ser quem melhor dominava o inglês, deveria ser Mestre do Corpo Local, considerando a necessidade de contato constante com as lideranças internacionais. Soror Babalon originalmente ficou com a Secretaria e Sorath com a Tesouraria. Pouco depois, ficaria ela com a Tesouraria e ele, com a Secretaria. As lideranças internacionais acataram com a distribuição de tarefas.

Em 16 de maio de 1996 foi estabelecido o Acampamento Sol no Sul na cidade do Rio de Janeiro. As correspondências dessa época com o exterior são termômetro de um espírito grato, febril e sonhador. Estava no rol de e-mails e faxes trocados agradecimentos ao grupo de Iniciação, relatos de experiências mágickas e aconselhamentos. As lideranças internacionais estiveram em contato estreito.

O ano parecia promissor. O grupo aumentaria: novas Iniciações seriam realizadas por Frater S., que um ano depois retornara ao Brasil. Em 23 de novembro de 1996 foi formado mais um Corpo Local da O.T.O. no país, na cidade de São Paulo: o Acampamento Therion, liderado por Piarus.

O amor inicial, no entanto, seria posto à prova. O primeiro desacordo surgiu ainda com a presença da equipe de Iniciação no Brasil, quando, discutindo sobre as estratégias de atuação da O.T.O. no Brasil, Iskuros Australis defendeu a ideia de que o recém-formado grupo deveria trabalhar entre eles, fechado, sem iniciar novos membros, enquanto Soror Babalon e Sorath defenderam que não havia sentido em trazer a Ordem para o Brasil se não fosse para difundir a Lei e mantê-la aberta aos interessados. No começo do ano de 1997, esse tema ainda estava sendo discutido. Mais tarde, Iskuros Australis acabou reconsiderando sua posição.

Mesmo assim, estava preparado um terreno para um choque de personalidades que, infelizmente, não ficaria restrito ao campo administrativo. A tensão crescia – principalmente entre Sorath e Iskuros Australis – misturada aos preparativos do Acampamento Sol no Sul. Soror Babalon e Sorath cobraram o início das atividades do Acampamento, bem como o aluguel de um local – que alguns membros do Acampamento se dispuseram a pagar – para sediar práticas de ritualística e Magick, mas Iskuros, como Mestre, demorou quase oito meses após a autorização do funcionamento do Corpo Local para reunir o grupo. Além disso, não sediou nenhum local como Templo. No começo, recuava quando a tendência era assumir um trabalho mais visível.

Tais desavenças de propostas para o trabalho fizeram Soror Babalon e Sorath deixarem seus cargos administrativos em janeiro de 1997. Nesta altura, ficaram Iskuros Australis como Mestre do Acampamento, sua namorada, Soror Sirinxe, como Secretária, e Frater Sabak, seu amigo de infância, como Tesoureiro.

Em abril de 1997, Sorath e Soror Babalon deixaram o Acampamento, entendendo-o como um ambiente de trabalho hostil. O choque com Iskuros Australis apenas cresceria.

Em São Paulo, no Acampamento Therion, ocorriam desavenças paralelas, mas similares. Soror Nefertite, Secretária daquele Acampamento, foi colocada em bad report (advertência por má conduta) por se opor à ingerência de Iskuros Australis, líder apenas do Rio de Janeiro, nos assuntos de São Paulo.

No dia 27 de julho de 1997, num dos picos desta crise, Soror Babalon cogitou se desligar da Ordem. Sua decisão, quando comunicada, alarmou os líderes internacionais – assim como seus Iniciadores – e uma atenção menos espectadora e mais intensa da O.T.O. se voltou ao Brasil, fazendo Soror Babalon reconsiderar sua posição. Somando isso à continuidade da briga pública entre Sorath e Iskuros Australis, o resultado foi a vinda ao Brasil, em novembro deste ano, de Frater Orpheus como Grande Inquisidor Geral da O.T.O: um auditor designado a apurar e resolver um problema interno da Ordem, quando as partes envolvidas já não parecem poder resolver por si só. Acompanhando-o, vieram também Frater S., Frater Sharash e Soror Loa.

Uma das possibilidades de solução ao conflito é que o trabalho da O.T.O. no Brasil fosse dissolvido.  A princípio, Iskuros Australis e Sorath não queriam, nem diante disso, dialogar. A emergência e a insistência de Soror Babalon fez com que as partes discutissem e se reconciliassem – mesmo que longe de resolver todos os problemas acumulados. Tentaram, assim, estabelecer uma trégua. O Inquisidor ouviu a versão e críticas de todos eles, mas a consideração final foi a de que estavam dispostos a continuar o trabalho. A O.T.O. no Brasil continuaria operante.

Nesta altura, com a presença dos Irmãos de fora, também foi realizada a primeira Missa Gnóstica oficial no Brasil. Desde o começo, a E.G.C. esteve adormecida devido à ideia errônea do oficialato brasileiro de que Missas Gnósticas não poderiam ser celebradas. De fato, Missas oficiais da E.G.C. demandam a presença de um Sacerdote ou Sacerdotisa ordenados, o que exige, no mínimo, o grau de Cavaleiro do Leste e do Oeste da O.T.O. No entanto, Missas de treino podem – e devem – ser realizadas por oficiais em treinamento, dada sua importância como ritual central da O.T.O.

Na primeira Missa oficial realizada no Brasil, o Sacerdote e Sacerdotisa responsáveis por ela foram Frater Orpheus e Soror Loa, hoje Representante do Frater Superior (FSR) para a Alemanha. Iskuros Australis atuou como Diácono em treinamento, Soror Babalon e Frater Sorath como Crianças. Retornando às atividades no Acampamento Sol no Sul, Soror Babalon assumiu a liderança dos trabalhos da E.G.C por recomendação de Frater Orpheus, que assumiu como Bispo para o Brasil. Posteriormente, Soror Helena, veio a assumir esse posto.

Mesmo nessa altura, o número de iniciações realizadas no Brasil era promissor: no mundo inteiro, éramos o país que mais iniciava novos membros.

O período de tréguas, no entanto, seria encerrado por uma grave turbulência na vida pessoal do Mestre do Corpo Local. A má gestão de conflitos familiares, que diziam respeito exclusivamente à vida privada dele e de um Irmão da O.T.O., acabaram culminando na suspensão deste Irmão por Iskuros Australis. Mais uma vez, embora com gravidade inédita até então, os bastidores de problemas pessoais rapidamente contaminaram o que deveria ser um espaço de trabalho impessoal, submetendo a Ordem a uma torrente de complicações que só deviam dizer respeito a ela no campo da fraternidade, e não no administrativo. Tal situação chegou a paralisar todos os trabalhos do Acampamento. Não fossem alguns membros do Sol no Sul, as consequências teriam sido muito piores na vida pessoal dos envolvidos.

A liderança do modo que estava se tornou insustentável. Iskuros Australis, aceitando por fim a sugestão das lideranças internacionais, decidiu se afastar do cargo e recomendou Soror Babalon para substituí-lo como Mestre do Corpo Local. Apesar dos choques de outrora, Iskuros Australis recorreu a ela nos momentos de crise. No dia 7 de novembro de 1998, ela assumiu a maestria do Corpo Local, que na mesma ocasião deixou de ser Acampamento para se tornar Oásis Sol no Sul, dando mais um passo em seu processo de maturidade.

Disso se seguiria um gradual período de transição no norte do trabalho do Corpo Local. Para começar, Missas Gnósticas passariam a ser realizadas com regularidade e as instruções sobre Thelema e Magick ganhariam densidade e cunho prático.

Apesar disso, também se prenunciava o último espasmo das crises passadas. Mesmo antes de assumir como Mestre do Corpo Local, Soror Babalon avisara Iskuros Australis que ela teria de reintegrar o Irmão que fora suspenso por ele, uma vez que aqueles problemas não diziam respeito à Ordem. Mesmo mantendo, na altura, a recomendação de Soror Babalon para próxima líder, Iskuros Australis também assumiu que ela estaria trabalhando pessoalmente contra ele.

Nesta época, Soror Babalon também foi nomeada como Representante do Frater Superior (FSR) para o Brasil, com autoridade para planejar o trabalho nacional.

Somando-se a isto, durante uma Iniciação a ser realizada em São Paulo, as lideranças internacionais definiram que seria Soror Babalon, e não Iskuros, a liderar o rito. Insatisfeito, ele pediu desligamento da Ordem. Foi prontamente atendido.

Os membros da O.T.O. no Brasil só viriam a enxergar a totalidade do que estava acontecendo algum tempo depois: Soror Babalon havia sido encarregada de realizar novas Iniciações em São Paulo e, ao término do ritual, o próprio grupo do Acampamento Therion pressionou Frater Piarus, Mestre do Corpo Local, para revelar a ela o que vinha ocorrendo: já há algum tempo, Piarus estava trabalhando nos bastidores com Iskuros Australis para “retirar” aquele Acampamento da O.T.O. e colocá-lo sob a autoridade da “O.T.O. Foundation”, uma dissidência da O.T.O. sediada na Inglaterra. De fato, já há algum tempo, em reuniões de Corpo Local, Piarus dizia que o Acampamento Therion já não estaria mais ligado à O.T.O .

Deste enredo, acabou-se resultando também o desligamento de Piarus da Ordo Templi Orientis.

Quase simultaneamente ao término do Acampamento Therion, em 1999, já nasceria o Acampamento Laylah, na cidade de São Paulo.

Essa transição foi um período tumultuado por discussões e brigas, muitas vezes levadas a público na Internet, acerca do recente passado mal resolvido. Soror Babalon chegou a receber e-mails e telefonemas ameaçadores. Temendo que a conduta de ex-membros expusesse a O.T.O. em listas públicas, a orientação passada foi, então, de que ninguém da Ordem se manifestasse ou respondesse mais a qualquer ataque. Essa abordagem, além de decente, revelou-se eficaz.

No Rio de Janeiro, o então Oásis Sol no Sul estabelecera seu primeiro Templo numa casa alugada no bairro da Tijuca, próxima ao Maracanã. Nessa época, o Templo chegou a ser arrombado, seu material ritualístico foi roubado e suas paredes foram pichadas. Seguiu-se, a partir disso, um período de reestruturação.

No Rio de Janeiro, o ano de 2000 marcou a consciência de que o legado do Sol no Sul devia ser finalizado. Desse processo, e como ato mágicko, nasceu o Oásis Quetzalcoatl, substituindo o velho trabalho por algo novo. Gradualmente, os ataques foram cessando. O trabalho poderia continuar, revitalizado.

Longe de ter sido um mar de rosas, todo este período concretizou o trabalho da Ordem no Brasil na base da constância e paciência. A O.T.O. no Brasil havia sido testada, sobrevivido e poderia seguir adiante.

Juventude: problemas editoriais

Uma coisa importante a ser percebida é que, durante a antiga liderança do Acampamento Sol no Sul, o método usado para fincar a bandeira da O.T.O. no Brasil foi travar uma política de tensão com outros grupos esotéricos ou iniciáticos, principalmente aqueles thelêmicos sediados no Rio de Janeiro. Iskuros Australis frequentemente atacava Frater Aster. Com o tempo, foi percebido que essa postura deveria ser superada, sendo típica de uma fase pueril.

Soror Babalon ainda mantinha contato com Frater Aster e tinha em mente que qualquer atrito seria contraproducente tanto para a O.T.O. como para a difusão de Thelema. As brigas do passado já tinham ensinado o bastante acerca da esterilidade de relações grosseiras. Como política de boa vizinhança, foi organizado um encontro com alguns thelemitas no Rio de Janeiro. A reunião foi realizada na casa de Frater Aster, no Grajaú, estando presentes ele mesmo, Soror Babalon, Frater Q.V.I.F. (que nesta altura já reatara com Aster) e Frater ABO: os dois últimos, na época, à frente da Loja Nova Ísis.

O objetivo da reunião era firmar uma política fraternal entre os diversos grupos. Isso, a princípio, foi bem recebido por todos. Independente do estilo de trabalho e divergências, ficou definido que todos iriam se respeitar mutuamente e cessar as brigas na Internet, que inevitavelmente prejudicavam o movimento thelêmico como um todo no Brasil. Soror Babalon também sugeriu a ideia de ser realizado um evento thelêmico anual que reunisse os grupos ou ordens thelêmicas interessadas. A proposta seria um encontro sob a égide de Thelema, onde os diversos grupos apresentariam resultados e exporiam seu estilo de trabalho uns aos outros e aos aspirantes. A ideia foi muito bem recebida. Além disso, devido à convivência de anos que tinham, Frater Aster deu sua palavra a Soror Babalon que não se envolveria em qualquer ataque à O.T.O.

No entanto, em 2000, uma corrida judicial na Inglaterra, desencadeada por Anthony Naylor, representante de John Symonds, iniciou processos contra a O.T.O. pela posse dos direitos autorais das obras de Aleister Crowley. Crowley, em testamento, deixou seus copyrights para a O.T.O. A reivindicação em questão se deu porque John Symonds, designado como executor literário de Crowley, não reconhecia a legitimidade da Ordem.

Os ecos desse conflito chegaram ao Brasil. Nessa mesma altura, Frater Q.V.I.F. telefonou para Soror Babalon. Ele confirmou que a proposta de reunir os thelemitas de maneira independente era excelente, mas que não poderia mais aderir a ela, uma vez que estaria apoiando o movimento inglês que lutava pelos copyrights de Crowley. Ele deixou transparente que sua motivação era financeira. Somado a isto, na mesma época, Soror Babalon encontrou textos publicados na Internet que atacavam a O.T.O. na tão discutida questão da sucessão de suas lideranças. O estilo de escrita era o de Frater Aster. Perguntado sobre os posts, Aster, a princípio, negou sua autoria. Com o passar do tempo, novos textos foram surgindo, dessa vez com a assinatura dele publicada. Entendendo isso como quebra da palavra por parte de Aster, Soror Babalon rompeu as relações que ainda mantinha com ele. A conversa que tiveram a respeito disso, no telefone, foi a última vez que se falaram.

Assim, a iniciativa de um “encontro thelêmico” existiu apenas como ideia. De todo modo, embora sem travar maior proximidade com qualquer outro grupo, a O.T.O. no Brasil continuou mantendo uma política de boa vizinhança e de não interferência com o trabalho alheio.

Os ataques nas listas de discussão virtuais continuaram por um tempo, principalmente sobre a questão editorial e dos copyrights. A poeira baixou após a resolução da corte inglesa favorecer a O.T.O. contra Naylor e Symonds. Do mesmo modo que os processos de Marcelo Motta em Maine e na Califórnia, a questão foi resolvida com a O.T.O. sendo confirmada como detentora dos direitos autorais de Aleister Crowley, em conformidade com seu testamento.

Criatividade & crescimento

A juventude da O.T.O no Brasil foi marcada por uma fase de trabalho entusiasmado e crescimento.

Missas Gnósticas eram realizadas quinzenalmente, alternando a equipe de ritualística: isto é, às vezes Soror Babalon desempenhava o papel da Sacerdotisa, às vezes Soror Hathor, então Tesoureira do Oásis, e também outras Irmãs. O mesmo com Sacerdotes e Diáconos. Encontros informais do grupo aconteciam praticamente toda semana. O Templo virou o segundo lar de muitos, servindo de pernoite para Irmãos e também de abrigo para retiros espirituais.

Também começaram a ser realizadas palestras abertas ao público, com temas introdutórios à filosofia thelêmica, Magick e a O.T.O. Outros eventos sociais, como exposições de arte, apresentando obras de Irmãos e Irmãs da Ordem, também tiveram lugar no Templo do Oásis. Relatos dos remanescentes dessa época confirmam um grupo jovem, ativo e criativo, mas, por muitas vezes – o que é natural para uma fase análoga à adolescência –, difícil de organizar.

Em São Paulo, no Acampamento Laylah, a então Mestre do Corpo Local, Soror Binah, deixou de manter contato e, mais tarde, descobriram que ela tinha deixado a cidade sem indicar ou preparar alguém para substituí-la. Correndo atrás do prejuízo, Soror Babalon treinou Soror Kali para assumir a Maestria do Acampamento e manter o Laylah funcionando. Kali assumiu oficialmente a liderança do Acampamento em 2000.

Em meados de 2001, foram contabilizados cerca de 40 membros ativos no Oásis Quetzalcoatl, isto é, em situação regular para com a Ordem, frequentando e trabalhando naquele Corpo Local. O grupo era substancialmente maior do que o comum para um Corpo Local da O.T.O. Para o estilo da Ordem, cujo modo de trabalho se afina melhor com grupos pequenos, esse era um número excepcional, realizando ativamente a Missa Gnóstica e outros Ritos, Iniciações, instruções e confraternizações..

No Distrito Federal, em 21 de março de 2000, foi aberto o Acampamento Aldebaran, sob a liderança de Frater Obscurus. Ao contrário do Laylah, o Acampamento Aldebaran não conseguiu sobreviver, devido ao número limitado de seus membros. Em 3 de maio de 2003, as portas do Acampamento estariam sendo fechadas.

De volta ao Rio de Janeiro, em 2001 foi realizado o Primeiro Encontro Nacional da O.T.O. no Brasil (ENOTO), no município de Paraty, aconchegante cidade histórica na Costa Verde do estado, próximo à divisa de São Paulo. Cerca de trinta Irmãos e Irmãs de todo o país saíram em vans para o hotel que os hospedou, durante três dias de encontro e palestras. Não restava dúvida de que o espírito da O.T.O. no Brasil estava devidamente solidificado.

Antigas questões × novos percalços

O trabalho dos Corpos Locais da Ordem mantinha um ritmo saudável, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro. O ritmo constante da prática ritualística, como no caso da celebração do Liber XV, desenvolvia a maturidade mágicka dos membros. Essa época é descrita pelos que a viveram como de intensa sensibilidade e afinidade entre o grupo.

Alguns baques, no entanto, não deixaram de acertar o Oásis e a O.T.O. no Brasil. Um deles foi causado até mesmo por Frater Sorath, um dos responsáveis por trazer a Ordem para o país. Após ter violado juramentos mágickos referentes a segredos Iniciáticos da Ordem, Sorath foi questionado e reagiu de maneira hostil. Seu desligamento da O.T.O. foi inevitável. Após isso, como infelizmente era de praxe, ataques pessoais foram levados à Internet.

No Rio, em termos administrativos, já há algum tempo Soror Babalon desejava transferir a liderança do Oásis Quetzalcoatl. Para isso, estava treinando Soror Hathor, então Tesoureira do Oásis. Os membros do Rio já tinham como certa a futura mudança da Maestria. Efetivar a transição, no entanto, não se revelou tão simples.

Numa aparentemente eventual reunião com Soror Babalon, Soror Hathor disse ter algo para comunicá-la. Com naturalidade, informou estar envolvida com um grupo de Iskuros Australis – que há anos não tinha contato com a O.T.O. –, e que não poderia, portanto, assumir a liderança. Ademais, o plano inicial, até então velado, era que Hathor assumisse a liderança do Oásis a fim de realizar uma “transição” do grupo da O.T.O. para o grupo de Iskuros Australis, como maneira de minar o trabalho da Ordem. Obviamente, todas essas considerações abortaram o planejamento de transferência da liderança.

Confessadamente combalida pelo golpe, Soror Babalon pediu recesso dos trabalhos da Ordem e se afastou do Oásis. Por menos de um ano ela permaneceu afastada. Nessa época, Frater Lux Ferre assumiu como Mestre delegado (cargo de gestão provisória) do Oásis Quetzalcoatl.

A época, no entanto, não foi de desenvolvimento. Primeiramente, Lux Ferre manifestava publicamente aversão em se comunicar com as lideranças internacionais, como se isso representasse uma interferência em seu próprio trabalho. Com algum tempo à frente do Oásis, Lux Ferre também expediu aos membros um comunicado de que a O.T.O. estaria “fechada para Iniciações” e que serviria de “ordem externa” para seu grupo exotérico pessoal. Isso, naturalmente, não faz qualquer sentido dentro do trabalho da Ordem, e um Mestre de Corpo Local não tem qualquer autorização para um improviso desse gênero. O resultado dessa gestão arbitrária foi a saída de muitos membros do Oásis e da Ordem.

Soror Babalon, então afastada, foi avisada do que estava acontecendo apenas quando as lideranças de São Paulo entraram em contato para comunicar que Lux Ferre estava passando instruções de que a O.T.O. no Brasil estaria buscando aliança com um grupo chamado Fraternitas Lucis, a fim de realizar, inclusive, “troca de patentes”. Isso, novamente, não faz qualquer sentido para o trabalho da O.T.O. Alarmada, Soror Babalon se reaproximou do Oásis, descobrindo o quadro em que ele se encontrava, e descobrindo também que irregularidades financeiras estavam sendo praticadas por Lux Ferre.

Após entrar em contato com as lideranças internacionais, Soror Babalon retornou aos trabalhos e reassumiu a Maestria. Em reunião com o antigo Mestre delegado e outros Irmãos, ela comunicou Lux Ferre que a situação financeira do Oásis deveria ser regularizada, bem como um pedido de desculpas deveria ser feito, e que tudo isso estava em conformidade com a decisão das lideranças da O.T.O. Ele se recusou, e assim se deu seu final desligamento da Ordem.

Baixas e renascimentos

Vivendo altos e baixos, o trabalho da Ordem no Brasil se manteve mesmo quando beirou a ruína. Nessa época, o Oásis Quetzalcoatl esteve quase completamente esvaziado. O Acampamento Laylah, em São Paulo, também passou por crises: por algum tempo ele continuou em atividade, mas incompatibilidades administrativas entre seus membros fizeram o Acampamento Laylah fechar definitivamente suas portas em 2004.

Mesmo a duras penas, o trabalho no Rio de Janeiro se manteve presente, recomeçando a fazer Iniciações, instruções e Missas. Por algum tempo, o Oásis divulgou a revista eletrônica eMagick, com artigos sobre Magia e entrevistas com seus membros.

Maturidade

Em 2008, o Oásis Quetzalcoatl se tornou Loja. A característica que tem marcado o processo de maturidade da Loja, bem como da O.T.O. no Brasil, é o entendimento sobre as flutuações do caminho, e a consciência de que a disciplina de manter o trabalho constante é o mais importante. Alegrias e frustrações, sendo humores, não podem parar a O.T.O.

A princípio, a Loja — na altura, a única representação da Ordem no Brasil — assumiu uma postura mais minimalista: o Templo alugado foi abolido e a residência de Soror Babalon, no Vale de Itacuruçá, passou a sediar os eventos da Ordem. A casa de outros irmãos também hospedou as instruções mensais da Loja. A Missa Gnóstica assumiu uma frequência sustentável, mensal, bem como as Iniciações, que se tornaram regulares ao longo do ano. Outros ritos também foram realizados, como o Rito de Ísis, escrito por Charles Stansfeld Jones (Frater Achad). Esse ritmo vem se mantendo até o presente momento.

Em 2009, foi lançado o site da Loja Quetzalcoatl, com sua plataforma de notícias. O site da representação brasileira da O.T.O., que esteve caído por cerca de dois anos, foi refeito num formato mais simples e objetivo, e relançado em 2010. Em 2015 o site é mais uma vez reformulado, para comportar uma área de notícias, em um visual mais moderno e contemplando tecnologias mais atuais, como celulares e tablets.

No dia 14 de novembro de 2009, a O.T.O. no Brasil recebeu um frescor de vitalidade: nascia o Acampamento Opus Solis, Corpo Local para a cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Os irmãos mineiros, liderados por Frater Pan Ain Soph, iniciavam a organização dos trabalhos com energia e disposição: com intensa demanda de candidatos e promessas para o futuro, a festa de abertura do Acampamento foi realizada nos dias 16 e 17 de janeiro de 2010, num sítio em Azurita, cidade próxima à Belo Horizonte. Na ocasião, foi celebrada a primeira Missa Gnóstica em solo mineiro. Em 2016, por seu excelente trabalho, o Acampamento foi promovido a Oásis.

No final de 2011, Frater Pan Ain Soph deixou a Maestria do Opus Solis. Soror Athena, então Secretária, o sucedeu e, desde então, ela está à frente do Acampamento mineiro.

Em 2010, nos dias 13, 14 e 15 de novembro, foi realizado outro evento emblemático de proporção nacional: o II Encontro Nacional da Ordo Templi Orientis (ENOTO). Com nove anos de intervalo em relação à sua primeira edição, o ENOTO foi realizado num sítio na cidade de Queimados, Rio de Janeiro, e congregou Irmãos, Irmãs e convidados do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Seu tema foi a E.G.C., e essa foi uma oportunidade rara de passar dias inteiros de convivência e instrução sobre a Missa Gnóstica, a via eclesiástica em Thelema e o Gnosticismo como visto pela O.T.O. Missas particularmente vibrantes fecharam noites onde alguns Irmãos sequer dormiram, esperando pelo toque de alvorada para realizar o Liber Resh matinal.

Em 2010, a Loja Quetzalcoatl também lançou sua Revista oficial, a Estrela Rubi, em formato digital, cuja edição de estreia levou ao ar uma entrevista exclusiva com Soror Babalon sobre o panorama de Thelema no Brasil. A Estrela Rubi, como “voz pública” da produção intelectual da Loja Quetzalcoatl, foi divulgada em formato eletrônico até o ano de 2013, durante os Equinócios e Solstícios. Em 2015 foi lançado o especial impresso, contendo todo o material até então publicado. 

No dia 2 de janeiro de 2012, Soror Babalon anunciou a concretização de um antigo sonho: deixar a liderança da Loja para assumir exclusivamente a Representação nacional do Frater Superior. Após 11 anos à frente da Loja, e 16 anos de trabalho pela O.T.O. no Brasil, ela transferiu a Maestria da Loja Quetzalcoatl para Frater Apollôn Hekatos, que inaugurou o primeiro ano de trabalho da Loja sob sua gestão em 10 de março de 2012. Ao final de 2014, a maestria da Loja voltou às mãos de Soror Babalon, que aposentou-se em 2017, passando a exercer um trabalho solitário. Com isso, a Loja Quetzalcoatl voltou ao estágio de Oásis, com maestria exercida por Frater Her-ur.

Conclusão

Fazendo o retrospecto dos primeiros anos, torna-se óbvio que o desenvolvimento mágicko e espiritual foi limitado. No entanto, tal experiência serviu para nos ensinar que um corpo fraco e conflitante — neste caso, Corpos Locais — não consegue estruturar e alimentar uma construção mais profunda e sutil, como o espírito. A saúde dos anos seguintes seria comprovada pelo aumento de práticas e resultados, bem como instruções de qualidade internacional. Os novos percalços, por sua vez, serviram para nos libertar dos humores e das flutuações que assaltam qualquer trabalho. Graças a isso, constância pôde ser conquistada.

Escrever a história da O.T.O. no Brasil não é apenas questão de reunir e listar datas e eventos. É uma questão de tom. Compreendemos, durante a edição deste número da Revista, que por muito tempo as atividades relacionadas a Thelema no Brasil estiveram concentradas quase miticamente na figura de indivíduos, mais do que no trabalho que eles realmente desenvolviam. A única conclusão que podemos chegar é que isso é indício de imaturidade, como todo apego ao carisma ou a aparências, que facilmente se desdobra em culto à personalidade. É muito fácil, ao se concentrar na personalidade de personagens, nublar o trabalho — ou falta de trabalho — impessoal que eles fazem ou fizeram.

Embora seja realmente difícil falar da história de Thelema e da O.T.O. no Brasil sem falar a respeito da vida das pessoas que a fizeram, o tom que buscamos alcançar é que o foco deve residir no trabalho dessas pessoas: o que foi produzido, o que deixou de ser produzido, bem como a postura destas pessoas como líderes ou em cargos de liderança, ou seja, em postos que não dizem respeito à pessoa delas, mas à representação de algo maior.

Todos os citados neste texto sabem que detalhes de suas vidas pessoais não foram expostos. Esperamos que o trabalho thelêmico no Brasil possa seguir amadurecendo no sentido da impessoalidade, para benefício de todos buscadores sinceros que procuram por estruturas de aprendizado e Iniciação, e não rostos ou mestres para seguir.