A Mão e a Boca

Costuma-se falar muito sobre aquilo que se quer. Todo mundo é rápido do gatilho quanto o assunto é propalar aos quatro ventos desejos, promessas e esperanças. Entretanto há uma grande distância entre a boca e a mão e nesta distância muita coisa se perde, se distorce e se refaz. Pois a boca é a ferramenta primordial do Ego, sua escrava, que por ela manifesta todas as suas ilusões, sejam aquelas autoimpostas ou as que criamos por pura conveniência. A mão, porém, tem outro mestre, que é o coração. Ela age sozinha, fazendo o que deve fazer, sem que o Ego lhe preste atenção. Pois é a mão quem ergue muros e lavra a terra, é a mão que se suja no trabalho enquanto a boca permanece pura com suas belas palavras.

No dia-a-dia fazemos muitas afirmações, prometemos tudo o que nos seja conveniente, mentimos e enganamos os outros e a nós mesmos. No Alfabeto Hebraico, a boca é representada pela letra Pe, que está ligada ao Planeta Mercúrio. Na Astrologia este é o planeta das transformações, com seu giro rápido ao redor do Sol. Segundo a antiga tradição (hoje sabida como falsa), apresentava apenas um de seus lados para a luz solar, vivendo eternamente metade na luz, metade nas trevas. Este planeta é também o deus Hermes, divindade do conhecimento, mas também dos ladrões e viajantes. Na árvore da Vida seu Caminho é o que liga Netzach a Hod, simbolizando a excitação da Inteligência, onde também está o Atu “A Torre”, carta de destruição e queda trazida pelo Eon. A boca é por onde o Ego manifesta sua Inteligência e por onde ele exalta-se para o mundo. É onde está a trapaça de Hermes, roubando o gado de Apolo e depois ludibriando-o com palavras doces. É na boca que estão a mudança rápida de idéias e os truques do ilusionista.

Mas em nossas vidas também fazemos muitas coisas sem nos darmos por conta. São nossas mãos trabalhando sem que nosso Ego perceba o que está acontecendo, manifestando nossa verdadeira natureza. São duas as Letras Hebraicas que falam das mãos; Cheth para a mão direita, Yod para a esquerda. Estas duas letras falam da unidade com o Divino, da pluralidade da Criação, do Infinito que se acomoda no Finito. Falam do impulso que vence o medo e realiza o que está no Coração. Seus signos são Câncer e Virgem, o sentimento puro, ainda que oculto por grossa carapaça, e a capacidade de realizar o que é necessário se fazer. Ambos ligados aos sentimentos, ao doar-se ao outro. Ambos também têm nos Atus estas letras ligadas, “O Carro” e “O Eremita”, a figura de Hórus; em um o deus guerreiro, seguindo em sua armadura dourada para a batalha e a vitória, no outro o deus idoso, já realizado em suas aspirações e tendo vencido suas guerras, prepara-se agora para gerar um novo mundo. Os caminhos das mãos são os que ligam Binah a Geburah e Chesed a Tipharet, que precebem o mundo sentindo-o e dele obtendo puro entendimento, sem julgar, e que manifestam a Verdade. É nas mãos que encontramos, assim, o contato mais puro entre aquilo que somos em nossos corações e o mundo. É com elas que fazemos a verdaderia obra de quem nós realmente somos.

Se a boca mente, as mãos toda verdade revelam.

Mas o que significa tudo isso? Simples. Ao se buscar o conhecimento de outro, bem como de si mesmo, deve-se manter uma observação não de suas palavras, muitas vezes bonitas e açucaradas, e sim em seus atos. Mais importante que o que se diz são as ações tomadas pelas pessoas. O comportamento, não pontual mas ao longo do tempo, revela a verdadeira motivação e o real caráter de uma pessoa, ainda que suas palavras sejam contraditórias. Nosso Ego manifesta-se através delas, enquanto aquilo que fazemos na prática revela nosso Espírito.

Na busca pela Verdadeira Vontade muitas vezes tecemos teorias e procuramos na Palavra e no Intelecto (a boca) as respostas que buscamos. Entretanto seria muito mais sábio que estas respostas não fossem procuradas ali e sim onde elas se escondem, em nossas atitudes, em nossos comportamentos, nos gestos de nossas mãos.


Autor: Frater Inanis