A Difícil Arte do Silêncio

Existem certas artes, para cuja aptidão parecemos despertar apenas com o decorrer da idade, a vinda da maturidade. Por certo, se despertassem em verdes corações seriam destruídas pelo burburinho das paixões, tal a sutileza da qual são constituídas. O que esperar do despertar sublime num coração que mal conhece a si mesmo e que na ânsia da busca se entrega à plenitude do fogo ardente que corre em suas veias e alimenta sua natureza febril, senão o total abandono e o repouso no incognoscível?

Tudo vem a seu tempo. Existe o momento da consumação no fogo ardente das paixões e o momento em que, já transmutado no elemento purificador, se descobre o prazer de navegar em águas tranquilas. E é na calma plácida do rio que corre em direção ao mar, propiciando vida, que se deseja pela primeira vez a maestria da arte do silêncio, a fim de, na infinita grandeza de uma alma silente, contemplar a beleza sem perturbar o curso do natural.

Observe-se aqui que a arte do silêncio a que me refiro objetiva a contemplação do belo e nada tem a ver com o silenciar casmurro provocado pela frustração, pela raiva contida diante do desejo não realizado. A arte à qual faço referência é aquela que, trilhando a via do prazer, leva ao despertar da alma guilhotinada, leva à união com o cristo interno, com Prometeu, o portador da chama divina. E é este o real objetivo de toda a alma, embora inconsciente, o desejo da união com seu criador, a visão da forma esplendorosa que anima a vida, a consumação consciente naquela chama que aquece o coração de toda a Estrela e que parece reacender nos nossos atos mais sublimes e glamourosos.

A arte do silêncio, assim como todas as artes, exige, para a sua maestria, atenção e real dedicação, exige o despojar-se de qualquer desejo estranho à meta. Qual mulher enciumada exige tudo para si e promete prazeres infindos caso o amante seja promissor. A maestria, não importa o campo em que ela decida fincar seu baluarte, traz implícita a palavra abdicar. Abdicar significa renúncia e nada mais difícil do que renunciar ao afã da alma animal que almeja sempre grandes emoções e grandes louvores.

Esta porção animal de nossas constituições é também uma amante ciumenta que exige total dedicação. Dona de poder grosseiro, afinado com a nossa condição material, exerce sobre nós um fascínio que lhe dá autoridade sobre nossas vidas, fazendo com que aquela dama sublime, aquela anteriormente mencionada que nos promete prazeres infindos, acabe sendo esquecida no turbilhão inconsciente de nossa própria submissão.

Mas afinal de contas, qual seria a tão nobre dádiva que a dama do silêncio tem a nos oferecer?

Sabedoria é a resposta. Todo sábio é antes de tudo um homem de poucas palavras que, quando proferidas, demonstram a nobreza de seu ser, fazendo com que todo o burburinho ao seu redor cesse em ardoroso louvor diante da sapiência revelada. Diante dos grandes homens a turba se cala como que intuindo, através de sua alma pequena, o verdadeiro caminho que leva à dignidade soberana.

Durante todo o curso de nossas vidas buscamos o saber, seja no conhecimento pleno da profissão à qual nos dedicamos ou na complexa habilidade do viver. A busca do conhecimento é ato implícito à nossa natureza, mas nenhum cabedal científico parece ser suficiente para fazer cessar o grito de lamento emanado do vazio que nossas almas sentem. Parecemos sempre buscar algo mais, algo que preencha nossos espaços vazios e console nossa alma aflita. Inconformados com nossa situação, nos debatamos no ruído interminável e confuso das muitas vozes. Vozes estas que se elevam fora e dentro de nosso esplendoroso universo interior. Quando muitos falam nada se compreende…

É preciso aplacar a ânsia e fazer silenciar as vozes que clamam, a fim de que, ouvindo com respeitoso temor o chamado de nossa própria natureza, possamos chegar ao saber absoluto, à ciência universal capaz de aplacar nossa angústia e necessidade de saber. É incrível a capacidade que temos de fitar sem perceber, sem examinar, de ouvir sem compreender, de aplicar o nosso olfato sem deixar que a impressão da fragrância atinja nosso espírito, de aplicar nosso dom tátil sem permitir que este nos ensine o real estado dos corpos, de utilizar nosso paladar sem degustar. Estamos sempre tão envoltos no corre-corre cotidiano que sacrificamos o prazer proveniente de nossos próprios sentidos, dádiva de nossa mãe natureza, em favor de um lado prático e imediatista de nossas próprias vidas. Desta feita, falamos sem pensar e ouvimos sem meditar, transformando-nos em alvos fáceis da ganância e despudor do outro que, tal como nós, olvidou suas dádivas naturais. Somos como um bando confuso em busca de um líder que forneça alimento para as nossas próprias almas, atropelando, sem piedade, a todo aquele que questiona o curso de nossas histórias.

Silenciar é imprescindível para observar e sem o observar não há como adquirir o saber. A própria ciência tecnológica, tão badalada em nossos dias, não é nada sem a observação. A ciência interpreta e reinterpreta continuamente os fenômenos do universo a fim de nos fornecer dados para a melhor compreensão e utilização do mundo que nos cerca. Com esta finalidade este personagem central da história humana, o cientista, silencia e observa com cautela e redobrada atenção a própria natureza, trazendo descobertas das quais usufruímos com enorme prazer, ou com enorme pesar. Somos, todos nós, cientistas por excelência, reinterpretando nossas vidas passo-a-passo, redescobrindo uma nova faceta de nossa constituição a cada minuto de existência, trazendo benefícios à nossa vida ou, tal qual a bomba atômica, destruindo-a.

O ocultismo como investigador da essência humana, com as devidas desculpas ao meio cientificista, é uma ciência. Esta essência, objeto de nosso estudo, é o substrato sobre o qual repousam os atributos do indivíduo. Serve de base a um fenômeno e é por meio deste fenômeno que trabalharam outrora e trabalham no presente milhares de renomados filósofos, numa atitude reflexiva, crítica e especulativa a cerca do ser, dos seres, do homem e de seu papel no universo, explicando e influenciando toda a racionalidade humana, inclusive a científica.

Muitos cientificistas haverão de dizer que as técnicas ocultistas, não podendo ser objetivamente comprovadas ou falseadas, carecem de evidências e portanto não possuem cunho científico, porém a eles seria bom lembrar que a ausência de evidências não é uma evidência de ausência, não exclui o fenômeno, visto que, a própria ciência só existe em função das descobertas que a princípio não eram evidentes, se fossem, não seriam descobertas. A semântica da palavra descoberta encontra-se estritamente ligada à palavra descobrir, ou seja, encontrar o que era desconhecido, que estava escondido. E o que é o estudo ocultista senão a busca pelo descobrir, pelo desvelar da natureza humana, gerenciado pela necessidade de compreender e melhor utilizar?

Os antigos, nossos ancestrais, conheciam a força dessa ciência, apaixonaram-se por sua beleza e desposaram-na com nobreza de intenções. Trabalhavam como cientistas, observando, refletindo, analisando e concluindo. Defendiam a necessidade da anulação do ego para uma melhor compreensão do todo, sendo esta anulação nada mais do que a neutralidade do sentimentalismo necessária ao raciocínio analítico, a fim de que o resultado não seja comprometido por crenças pessoais. A busca da verdade só pode atingir a sua meta quando livre da fé estruturada, quando livre da ânsia pela comprovação de nossa própria ideologia. E aqui encontramos novamente a arte do silêncio, representada na necessidade de calar nossas paixões a fim de concluir com exatidão a realidade dos fatos, pois quando se está habituado a ver o mundo de certo modo, torna-se quase impossível ver as coisas de maneira diferente.

Questionar a visão fornecida pelo ego cria uma profunda crise afetiva e apenas os fortes sobrevivem a este vendaval, daí se falar nos “escolhidos”, “os eleitos”, aqueles suficientemente fortes para, silenciando seu próprio eu inferior, vencer a ilusão fenomenal e buscar a “realidade última” do mundo observado.

Os antigos criaram uma epistemologia própria para encontrar esta “realidade última” , aquela além daquilo que a nossa visão pode alcançar, além do fenômeno, que é o campo de observação da ciência ordinária. Esta epistemologia vem representada nas diversas técnicas orientais e ocidentais de operação do espírito, sendo o yôga uma das mais divulgadas.

Esta busca da compreensão da causa do fenômeno, sendo algo que solicita de nós grande abstração, ou seja, isolamento mental do meio para poder dar vazão à reflexão, exige um silenciar absoluto, um isolamento total não só de todo movimento externo, mas também dos movimentos internos e inconscientes que norteiam nossa existência. Esta é a razão pela qual todas as grandes filosofias e sistemas religiosos sérios incitam os seus praticantes a treinar por diversas técnicas o silenciar da mente e do corpo, tendo como última etapa não só a concentração mental, como também a união desta mesma mente com o objeto em estudo, o absoluto todo e nada, aquilo que alguns interpretam como Deus, outros como Homem. O objetivo é fazer com que tanto o corpo quanto a mente daquele que deseja observar e compreender se submetam diante da vontade do mesmo, a fim de que não interfiram na operação. Nada deve interferir na busca do saber absoluto, a almejada onisciência perdida na dramatização da queda do paraíso.

A esfinge egípcia é o mais silencioso de todos os monumentos até hoje erguidos em favor de uma simbologia sagrada. Era postada na entrada dos templos do antigo Egito com a finalidade de advertir àqueles que nele penetravam de que os segredos ali adquiridos deveriam ser mantidos longe da cobiça do vulgo. Esta estranha criatura, misto de leão, homem, águia e touro representa a elementar lição de superioridade que o homem deve ter para vencer o animal que habita em seu interior, a lição que insinua é calar, querer, ousar e saber. Estes são os verbos dos querubins que protegem a Shekinah, ou presença de Deus, de onde procede a Bathkol, ou palavra de Deus.

Hoje, mais do que em qualquer era, o ocultismo encontra-se vilipendiado e destituído da nobre função que justifica a sua existência, o reconhecimento do plano espiritual. Sua cientificidade perdeu-se no afã do caminho fácil e isto me faz recordar um conto do mestre sufi, Nasrudin , o qual passo a relatar.

Nasrudin postou-se na praça do mercado e dirigiu-se à multidão: “Ó povo deste lugar! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem esforço, progresso sem sacrifício? ” Logo juntou-se um grande número de pessoas com todo mundo gritando: “Queremos, queremos!” ao qual responde Nasrudin, “Excelente! Era só para saber. Podem confiar em mim, contarei a vocês tudo a respeito caso algum dia descubra algo assim.”

Esta prosa exemplifica, infelizmente com grande fidedignidade, a atual situação do meio ocultista. Fomos invadidos por uma turba faminta pelo ganho fácil e com egos tão inchados que nada ouvem a não ser as promessas vãs daqueles a quem chamo de “empresários da alma”. Empresários sim, porque tomando aleatoriamente o título de mestres, assenhoram-se dos incautos explorando-os emocionalmente com a única finalidade de encher os seus cofres vazios. Neste nosso confuso século XX, como em nenhum outro século, se encontra um mestre em cada esquina oferecendo “sabedoria” em troca de qualquer vintém. Raros são aqueles que com pureza de propósitos de nós se aproximam. O burburinho tornou-se tal que não se consegue mais diferenciar o que é realmente ciência da alma e o que não passa de mero blá-blá-blá, e enfatizando o que já foi mencionado, quando muitas vozes falam nada se compreende.

Muitos, diante de tamanha desordem, hão de concluir que o verdadeiro conhecimento se perdeu e desta feita, cabisbaixos, se afastam do caminho. Este tipo de conclusão, no entanto, é uma precipitada análise dos fatos, visto que, não estando a sabedoria espiritual registrada em papel e tinta, mas sim, incrustada nos recônditos de nosso ser, torna-se impossível ao vulgo profaná-la.

O acesso à sabedoria almejada encontra-se guardado no relicário constituído pela tríade divina: corpo, alma e espírito. É a interação destes três fatores que abre as portas do santuário onde se encontra o mais sagrado de todos os textos, aquele no qual a nossa natureza está exposta e onde, através de leitura assídua, aprenderemos a nos tornar senhores de nossa essência divina, passando a exercer um verdadeiro papel no universo, seja ele qual for. Esta interação de todos os elementos de nossa formação só é possível pela observação do fenômeno que cada um provoca isoladamente, a fim de que, conhecendo as peculiaridades de cada fator da equação, possamos encontrar os pontos de intercessão que nos permitam chegar à unidade dos fatos, compreendendo, finalmente o significado do todo. A observação, facilitadora do processo, só será levada a cabo num meio desprovido de qualquer ruído que possa levar à dispersão, melhor dizendo, num meio que propicie uma plena concentração.

Diante do conhecimento consciente de nossa arte vital, aquela para o qual nos designamos, nada nos resta além de seguir, desta feita com certeza de propósito, o caminho que objetivamos como nosso destino, construindo passo-a passo a nossa verdadeira história. E nesta vereda cessa a dualidade, bem como o sofrimento advindo do ilusório dilema entre espírito e matéria, cessa o lamento da alma para dar vazão ao canto alegre do espírito vitorioso. O rei reassume seu trono, restituindo a ordem, e a natureza, tal qual fiel vassalo, diante da harmoniosa beleza, nos restitui o conhecimento à muito esquecido, aquela onisciência julgada perdida.

Tudo isto é belo de ser pronunciado, mas difícil de ser alcançado. Portanto, que não julgue o buscador poder repousar por um minuto, pois que a batalha é longa e o percurso árduo. A espada da vitória é chamada de concentração e está sempre embainhada no silêncio.

Silenciar é um difícil ordálio, de forma que, todas estas palavras que pronuncio podem ser apenas vã sabedoria, pois aquela que vos fala não é senão uma incansável guerreira ainda em busca da supremacia que, em seu infantil, afã ainda não atingiu a maestria da mais difícil das artes, o silêncio. Só vos resta, portanto, a busca solitária e incansável da comprovação pessoal da veracidade dos fatos. Sucesso é a tua prova e, na vitória que virá depois, ainda assim, o sucesso continuará sendo a tua prova…


Autora: Soror O. Naob