12 de Junho de 2009
Faze o que tu queres será o todo da Lei.
“Mais tarde, vocês vão tomar uma chifrada” - e, então, uma batida no tórax, que lembra o gesto ao se entoar “por Bes-na-Maut no meu peito eu bato”. A princípio, a estranha ameaça feita por Frater Pan Ain Soph é obscura, não fica clara. Mais tarde a entendemos, ao beber, à beira rio, cinco tipos de vinho num chifre viking.
Alguns de nossos Irmãos e a amigos acamparam no Parque Estadual do Ibitipoca, na Zona da Mata mineira, no último fim de semana de maio. Quilômetros antes de sua entrada, a chegada à pitoresca Vila de Conceição do Ibitipoca já anunciava o fim de qualquer trânsito, poluição ou mazela urbana. O vôo das maritacas, humildes botecos e vendas de pão de canela à beira da estrada sugeriam um lugar mais próximo do paraíso.
O tempo é corrido: uma exploração mais atenta do Parque pediria por uma semana de estadia. Ainda assim, para todos, a afinidade com os prazeres proporcionados por ele é instantânea. A beleza da florestal vista serrana, a serração fantasmagórica à 1.250m de altitude e um farto - e baratíssimo - caldo de feijão ou prato feito no restaurante do Parque bastam para fazer os mais sonhadores planejarem como poderiam se mudar para alguma casinha lá perto. Os mais radicais aderem a uma tática de guerrilha, pensando em invadir uma fazenda próxima ou passar a viver na mata.
Na “Prainha”, o anoitecer. Num deck na areia, velas começam a ser acesas. Como por mágica - na verdade, entre os tantos apetrechos de Frater Pan Ain Soph - surge uma Estela da Revelação. E então um Cálice. Providencia-se um altar. “Seria legal se tivesse um Livro da Lei”, comenta Soror Babalon. Não por isso: ele logo aparece. O cenário está montado.
Música celta, um violão desafinado, escuridão à luz de velas, incensos, bons vinhos, queijos e, como não podia ter faltado, cachacinha mineira acompanharam o reencontro e a matança da saudade. A chegada de um spray com uma fragrância “ativadora de Kundalini” desobstrui os narizes entupidos e, estranhamente gostosa, comove. Mas a combinação de tal essência com cachaça envelhecida pode resultar em efeitos inesperados: Astra se retorce, talvez na ideia de simular movimentos serpentinos, mas fungando as mãos, muito mais parecendo uma crise epilética: “¿Que pasa?”, ele perguntaria em horas esparsas ao longo da madrugada. A inspiração também nos levaria a uma leitura apaixonada do Livro da Lei.
De volta ao camping, a hora de dormir é adiada em mais algumas horas. O céu desnubla e estrelas abundantes se manifestam. Pedro fantasia com ninfas da floresta. O retorno às barracas é adiado mais uma vez: quando os remanescentes estão se recolhendo, Frater Achad, a quem o frio não parecia intimidar, aparece, a anunciar: “Faze o que tu queres será o todo da lei”. O ciclo de conversas se renova.
No meio da madrugada, uma aparição furtiva e farejante. A poucos metros, um castanho vira-latas gigante a espreitar, saído de cactos e mata baixa. Era ele: o lobo guará, cuja presença se torna cada vez mais rara devido ao crescente trânsito de pessoas no Parque. Tão breve e sorrateiro que só dois de nós tivemos a possibilidade de vê-lo.
Uma noite de ventania e frio. Pelo menos para quase todos - e Frater Achad zomba de quem reclama, pela manhã, ou bate o queixo, tremendo.
Às 6h, mal raiou o dia e, assombrados por preguiça ou ressaca, não são todos que aceitam a idéia de ir até a Cachoeira do Macaco, a cerca de 2km de trilha. O “Lago das Miragens”, a “Ponte das Pedras”, rios de peculiar água amarela e cachoeiras curvas fazem parte deste “Circuito das Águas”. Por fim, um geladíssimo banho para coroar a viagem. Enquanto isso, outros preferiam acordar na própria “Prainha”, próxima ao camping.
A viagem durou pouco. Muito menos do que deveria. O almoço na Vila de Conceição de Ibitipoca é marcado pelo planejamento de novos encontros em breve. O espírito de fraternidade da Ordem volta fortalecido, mesmo com a nostalgia dos bons momentos sendo ameaçada pelas horas de estrada e irritação do trânsito da cidade grande. Fica a esperança de logo voltarmos a viver dias como aqueles.
E a saudade dos Irmãos e de Ibitipoca.
Amor é a lei, amor sob vontade.
Veja mais fotos do encontro aqui.
(Nota: para garantir o direito à privacidade, as fotos de membros e convidados só foram publicadas mediante autorização)