Anjos Cabalísticos

Temos um grande problema quando falamos de anjos… Primeiro a Igreja nos veio com uma imagem deles, imagem esta que foi depois reforçada nos meios ocultistas/esotéricos por figuras como Mônica Buonfiglio. E hoje em dia acostumamo-nos a pensar em anjos como um bando de cópias do Brad Pitt com asas. Alguns com um pouco mais de bom-senso pensam também em cópias da Catherine Zeta-Jones com asas. Mas, de uma forma ou de outra, quando começamos a pesquisar um pouco melhor sobre o assunto chegamos à conclusão de que não é bem assim. Aliás, é bom deixar logo claro que os Anjos Enochianos são tão anjos quanto os Demônios Goethicos são demônios (no sentido cristão da coisa). Sendo assim, é melhor começarmos a colocar esta baderna em ordem… O conceito de “anjo” utilizado em nossa cultura surgiu na Cabalá e então me parece um tanto lógico que procuremos por lá o que eles são, antes de serem modificados pelo cristianismo e por doidos diversos.

Anjos não são sujeitos com asas e auréolas. Para dizer a verdade, anjos não são nem mesmo “sujeitos”. Ou melhor, anjos não são “seres”. Outro conceito errôneo (muito popular, aliás, entre os seguidores da corrente “New Age”) é de que os anjos seriam forças poderosas superiores aos reles humanos. Grande, grande erro. Anjos não são superiores aos seres humanos. E, para sermos precisos, vamos passar a chamá-los por seu verdadeiro nome. Deixemos de lado o termo latino “anjo” (de “angelus”) e usemos o termo hebraico original: melachin (melach, no singular).

Melach é a palavra em hebraico para “mensageiro”, pois é isto que é um “anjo”: um veículo para uma mensagem (exatamente isto, que nem o Messenger ou o Whatsapp). Mas o que é que estes mensageiros carregam para lá e para cá? Simples: levam “luz” e “sombras”. Pois existem tanto os melachin de luz (os que sobem) quanto os melachin de sombras (os que descem). Consideremos aqui que “luz” e “sombra” não tem nada a ver com se a lâmpada está ligada ou não. Estas “luzes” e “sombras” também não estão ligadas ao bom e velho conceito dual de “bem” ou “mal”. Elas possuem outro significado…

Então de onde viriam estas sombras? Simples… De nós, seres humanos, mesmo. Isto porque os melachin, estas forças mensageiras, nada mais são do que as palavras que emitimos. Esta é, aliás, a razão porque se diz que existem “72 anjos cabalísticos”, os quais são tão somente os 72 nomes de Yeve (“Deus, a seu dispor”): 72 seqüências de três letras (hebraicas, é claro!) que quando usadas de forma correta permitem uma conexão com determinadas energias — de proteção, cura, revelação, etc..

Aliás, é por isto que o judaísta e o cabalista evitam usar certas palavras. Cada palavra geraria um melach e dependendo desta palavra poderia ser gerado um melach de sombra ou de luz, que unir-se-ia a uma energia positiva ou negativa, carregando esta energia para Kether. Um juramento (ou até mesmo uma promessa falada) jamais pode ser leviano neste sentido pois é também um forte melach é gerado nesta hora, conectando a pessoa diretamente à egrégora pela qual foi feito o juramento. Se este não for cumprida fica um “buraco” por onde qualquer coisa pode entrar. Por este pensamento, já imaginou quantos buracos você carrega à sua volta?

Outro ponto que foi dito acima é esta idéia de que os anjos seriam aquelas coisas lá em cima olhando para a gente com cara de “coitadinhos, tão fraquinhos”… Os melachin são apenas ferramenteas da divindade (ou da egrégora, conforme queira), feitos para carregarem mensagens ou idéias entre esta divindade e o ser humano. E, sendo ferramentas, não possuem vontade própria; seria muito incômodo se sua chave-de-fenda resolvesse de uma hora para outra que não iria mais apertar parafusos de cabeça chata, só os de cabeça redonda. E, ora bolas, você não acha que um celular é superior a você. Aliás, até mesmo o melach da morte pode ser impedido em sua missão, se a pessoa que o estiver barrando souber quais as conexões energéticas que deve realizar para tanto. Por outro lado, um ser humano é dotado de livre-arbítrio e Vontade (o que não quer dizer que a maior parte das pessoas faça algum uso disto, muito pelo contráio em geral as pessoas apenas reagem à vida). Os anjos não são estrelas, homens e mulheres são. Um melach não pode dominar um ser humano mas um ser humano pode (e com todo o direito até) dominar um melach, mesmo que seja para desfazer uma ordem dada a ele pela divindade.

Um detalhe a ser considerado aqui é o anjo favorito de onze entre oito esquisotéricos, católicos, e velhinhas atravessando a rua: o anjo da guarda (alguém aí falou em Sagrado Anjo Guardião?). Bem, para a Cabalá isto simplesmente não existe. Afinal de contas você não pede para o seu celular te proteger (a não ser que seja um daqueles antigões e você o jogue na cabeça do ladrão). O que existe é o chamado Magid, que não é um melach e sim um reflexo de nós mesmos no o Mundo Superior, além de Kether. Algo como um “eu sou você depois da iluminação”. De vez em quando nosso Magid nos dá uma cutucada e recebemos alguma orientação — é a tal “proteção do anjo da guarda”. É claro que alguns sujeitos receberam um cutucão mais forte que outros. Alguns receberam um verdadeiro ippon, como o Crowley (com Aiwass) e Abraão (que não apenas foi “visitado” por seu Magid mas como também pelos de seu filho Isaac e de seu neco Jacó).

Esta é uma visão cabalística das coisas. É claro que a egrégora do “Brad Pitt de asas” já é consideravelmente forte (apesar de eu ainda preferir a Catherine Zeta-Jones) e nada impede alguém de lançar mão dela. Mas, como eu costumo dizer às quintas-feiras, é sempre bom saber de que moringa veio a água.


Autor: Frater Her-ur